Crítica | Dragon Quest: Your Story

Criada por Yuji Horii, Dragon Quest é uma das franquias de RPG mais famosas do Japão. O primeiro jogo foi lançado em 1986, e a série principal já conta com onze títulos até o momento. O longa animado Dragon Quest: Your Story é baseado no quinto título da franquia, que foi um marco por ser o primeiro a ser lançado para Super Nintendo e fora do Japão. A animação não só reconhece tudo isso, como também usa essas informações a seu favor. A cena de abertura é muito simbólica, já que o longa se inicia com gráficos em 16-bit, como se fosse o jogo mesmo, até chegarmos ao visual em 3D CG – uma evolução gritante.

Assim que o longa foi anunciado, dividiu os fãs por abandonar os traços de Akira Toriyama (Dragon Ball) – porém, só tenho elogios para a decisão artística, mesmo que perca a essência e um dos apelos da série. Os personagens ganham uma aparência mais cartunesca, sem deixar de lado o estilo anime, com muitos detalhes para a textura, principalmente a pele, que é incrivelmente detalhada. Também é ótimo ver que, durante uma batalha, os personagens realmente se machucam e sangram, diferente de outro anime em computação gráfica da Netflix – sim, estou falando de você, Saint Seiya. Os combates só têm a ganhar com essa escolha visual, com lutas dinâmicas de encher os olhos e muita coisa para se admirar. Por outro lado, o mesmo não pode ser dito da movimentação. Os personagens agem de forma muito teatral e exagerada, ficando artificiais. Em alguns momentos, parece que estamos assistindo a uma cutscene de quase duas horas. Claro que isso pode ser uma decisão artística para torná-lo mais próximo dos jogos, mas o resultado ainda causa estranhamento.

Além do visual, outro ponto de destaque é a interação entre os personagens. Mais especificamente, falo da dinâmica entre Luca e Bianca, que são apresentados como amigos de infância – o que realmente fica expresso na tela. A amizade e o romance entre os dois são muito bonitos, trazendo uma ingenuidade autêntica e tornando o arco um dos mais bem desenvolvidos e uma das melhores coisas a serem acompanhadas na trama. Dito isso, o roteiro é bem problemático.

Para começar, é um desafio muito grande condensar a história de um RPG, que conta com horas e horas de jogatina, num longa-metragem de quase duas horas. Como espectador, temos a constante sensação de que as coisas estão indo rápido demais, principalmente se levarmos em conta que a história se passa entre um longo período de tempo. Por esse motivo, a relação do protagonista com o pai não tem tempo suficiente de tela, assim como seus desafios parecem ser resolvidos facilmente. Por exemplo, logo no início, é dito que Luca viveu durante anos como escravo, mas sua fuga é tão simples que me pergunto por que ele não fez isso antes. Apesar dos problemas narrativos, a trama surpreende com seu plot-twist no final, que é uma verdadeira homenagem, não aos jogos, e sim aos jogadores. Ele mostra que a história foi realmente toda planejada até aquele ponto, ainda que essa justificativa não resolva todos os problemas.

Esse filme claramente foi feito pensando nos fãs da franquia, que devem se sentir representados ao ver o protagonista completando as mesmas quests do jogo. Melhor ainda: ao som da clássica trilha sonora de Koichi Sugiyama. O que não falta também é fan service, apesar deles não acrescentarem nada à trama, como o Tigre Dentes-de-Sabre Purrcy e o slime Gootrude. Tudo bem que eles não precisam acrescentar, mas esses dois, por exemplo, acabam não tendo muito o que fazer durante o longa, atrapalhando mais do que ajudando, através de momentos Deus Ex Machina.

Dragon Quest: Your Story conta com apelo para quem conhece a franquia, mas acaba deixando de lado um público mais leigo, que, inevitavelmente, acaba perdendo uma coisa ou outra. O problema é que a história que querem contar não cabe em menos de duas horas e há decisões questionáveis durante toda a trama. Apesar de uma proposta bem intencionada e uma bonita homenagem, o que realmente se sobressai aqui é o belíssimo visual.

Dragon Quest: Your Story
3

Comentário do Crítico

A animação tem como principais destaques o visual em computação gráfica e a trilha sonora clássica da franquia. Por outro lado, o roteiro conta com alguns problemas, como querer contar muita coisa em pouco tempo, tirando o peso de acontecimentos e conflitos importantes.

Sobre o Autor /

Formado em Cinema e Publicidade na PUC-Rio, colab do TechTudo, maquinista do Trem do Hype.

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