Crítica | Napping Princess usa imaginação para lidar com “assuntos de gente grande”

Recentemente, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos EUA revelou os filmes indicados ao Oscar 2018. Na categoria de Melhor Animação, cinco animes brigavam por uma vaga, mas nenhum deles foi escolhido. Mesmo assim resolvi dar uma chance para eles e descobrir se essas histórias realmente deveriam ser indicadas ou não. Uma delas é Napping Princess (Hirune Hime: Shiranai Watashi no Monogatari), que sabe envolver seu espectador independente da idade.

A história se passa em um reino futurista, onde todas as pessoas trabalham para uma grande fábrica de automóveis. Inclusive, o rei deste mundo, que aplica um regime totalitário, é o dono desta fábrica. A protagonista da história é a princesa Ancien, que com seu tablet mágico consegue dar vida à qualquer coisa, incluindo seu ursinho de pelúcia. Essa é a trama deste anime… Ou pelo menos foi o que pensei.

Isso que eu chamo de crítica social

Em um primeiro momento, achei que seria abordada uma crítica ao capitalismo, sistemas de produção em massa ou algo do tipo, mas não é exatamente o caso. Depois de sete minutos desenvolvendo todo esse mundo futurista, o filme nos surpreende pela primeira vez, onde descobrimos que aquilo era apenas um sonho. Na verdade, nossa protagonista é Kokone, uma colegial sonolenta filha de um mecânico. Ela mora no Japão, em um futuro próximo. Para ser mais preciso, durante as Olimpíadas de 2020, que funcionam como plano de fundo para a trama.

Esses dois mundos, que na verdade são a realidade e os sonhos de Kokone, contam com os mesmos personagens. Por exemplo, a própria Kokone é a princesa Ancien e o pai dela é um trabalhador que se rebela contra o sistema. O mesmo acontece com o rei, que na verdade é seu avô, dono de uma grande empresa de automóveis japonesa. No nosso mundo, o tablet mágico é um tablet com informações sobre carros autônomos, que serão usados durante a abertura das Olimpíadas no Japão (pelo menos na animação). O enredo gira em torno deste objeto, já que pessoas boas e ruins estão atrás dele por diversos motivos.

Em um primeiro momento, as duas histórias se completam, mas chega uma hora em que realidade e imaginação se tornam uma coisa só, o que é bem interessante de acompanhar, principalmente pela evolução gradativa deste conceito. Quando Kokone dorme no mundo real, a trama continua em seus sonhos. Por outro lado, ela volta para a realidade de forma repentina, como se tivesse acordado de repente.

O mais interessante é que o filme lida com questões meio complicadas para explicar para crianças, envolvendo o gerenciamento de uma companhia e a morte da mãe da protagonista. São aqueles clássicos “assuntos de gente grande”, mas que através da fantasia se torna algo mais palatável. O que também ajuda é o fato de termos uma protagonista inocente, mas corajosa, que nos guia por esses dois mundos. Ela conquista o público pela sua personalidade – e até mesmo uma identificação -, fazendo com que nos preocupemos e torcemos por ela.

Um dos elementos que mais me incomodou enquanto assistia foi a animação em si, que ficou por conta do estúdio Sinal.MD, fundado em 2014. O novato entrega um visual simplista aos personagens, mas um cenário bem rico em detalhes. Isso acaba criando uma desconexão entre esses dois elementos, que fica ainda mais evidente com o uso de CGI. Devido a isso, a sequência que deveria ser uma das mais empolgantes do filme – quando dois personagens voam sobre a cidade – acaba não entregando o resultado esperado.

Por outro lado, a ideia de contar uma história como essa do ponto de vista de uma criança, e ainda com elementos de sonho e fantasia, foi uma ótima escolha, tornando bem mais interessante do que seria sem eles. Napping Princess talvez não seja bom o suficiente para merecer uma indicação ao Oscar, mas não deixa de ser uma boa história que deve ser assistida.

Napping Princess
3.5

Comentário do Crítico

Napping Princess faz uma ótima decisão ao contar sua história pelo ponto de vista de uma criança, relacionando dois mundos – realidade e imaginação – de forma competente e instigante.

Sobre o Autor /

Formado em Cinema e Publicidade na PUC-Rio, colab do TechTudo, maquinista do Trem do Hype.

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