Crítica | Sol Levante

Não é de hoje que a Netflix investe em anime – a cada mês que passa, o catálogo aumenta. Inclusive, é possível perceber um grande investimento em animação digital, principalmente por conta dos animes em 3DCG, como Saint Seiya, Ultraman e Ghost in the Shell: SAC_2045. Mesmo assim, a maior contribução do serviço de streaming para a indústria chegou agora com Sol Levante, seu projeto mais ambicioso até então. Para se ter uma ideia, esse é o primeiro anime 4K HDR desenhado a mão da história. Mas será que é realmente bom?

Analisando Sol Levante apenas como entretenimento, o resultado é um pouco decepcionante. Ele conta com apenas quatro minutos de duração, sendo que um minuto é apenas para os créditos. Esse tempo não é o suficiente para contar a história que se pretende, tornando o curta apenas uma sucessão de eventos sem nenhum tipo de contexto e pouca expressividade. Parece que a narrativa realmente foi algo que ficou em segundo plano, enquanto todos os esforços da equipe foram voltados para a técnica. Dessa forma, é quase impossível sentir algum tipo de conexão com o universo criado ou a própria protagonista.

Por outro lado, temos a animação. A Netflix divulgou em seu canal no YouTube vídeos de making of, onde é dito que foram gastos dois anos para produzir esse curta de três minutos. Todo o esforço para fazer esse projeto acontecer está expresso na tela através da animação. O estúdio Production I.G. realmente fez um trabalho acima da média e o mais detalhista possível, onde há um cuidado minucioso até mesmo em elementos pequenos e no fundo. Mesmo não assistindo em 4K HDR, podemos notar particularidades, como ver todos os fios de um cabelo balançando.

Outro ponto de destaque em Sol Levante é o áudio, que usa tecnologia Dolby Atmos. A partir dela, podemos sentir o som vindo de todas as direções possíveis, sem limitações. Isso enriquece a ambientação, passando a ideia de áudio 3D. Aqui também é notada uma maior apuração dos efeitos sonoros, assim como uma grande variedade dos mesmos, para cada tipo de elemento na tela – mérito da edição de som e da mixagem.

A questão é que, mesmo que seja um espetáculo audiovisual, temos a sensação de que ele foi feito apenas para mostrar o que a tecnologia é capaz de fazer. Isso faz com que a produção não tenha “alma”, dando a impressão de ser apenas uma demonstração ao invés de um produto de fato. Um problema em torno disso é que, hoje, esse curta dificilmente será visto pelo público nas condições que seus idealizadores o conceberam. Quantas pessoas no mundo possuem uma TV 4K? Quantas possuem a tecnologia Dolby Atmos em casa? Nesse caso, não seria mais interessante planejar um lançamento nos cinemas, em condições ideais, mesmo que seja exibido junto com outra produção da plataforma?

Dito isso, vale também mencionar o propósito desse projeto. Por mais que Sol Levante seja de encher os olhos, mas com uma história pouco atraente, ele teve seu objetivo concluído. Se pararmos pra pensar que, atualmente, a maioria dos animes são produzidos em Half HD (1280×720), com algumas exceções em Full HD (1920×1080), imagina o trabalho que é produzir um do zero em 4K (4096×2160)? Essa evolução é o que podemos esperar em um futuro iminente, que ficou ainda mais próximo graças a essa iniciativa. O projeto teve todos os desafios que o pioneirismo conta, incluindo muita tentativa e erro até entender como a tecnologia funciona. Assim, o trabalho ficará mais fácil daqui pra frente. O mais legal é que a equipe disponibilizou os recursos de imagem e som para que outros estúdios e animadores possam ter acesso.

Sol Levante não é o que o público esperava, mas é o que a indústria precisava. Ele é mais um exemplo de como a Netflix está investindo nesse ramo, principalmente levando em conta a questão tecnológica. O tempo dirá que tipos de projetos vão surgir a partir desse experimento.

*O curta foi assistido em 1080p.

Sol Levante
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Comentário do Crítico

O curta é impressionante tecnicamente, com destaque para detalhes minuciosos, mas a história não tem muito a oferecer. Como projeto experimental, é uma iniciativa válida e que certamente vai ajudar a indústria na produção de animes em 4K.

1 Comentário

  • Pardal
    12 meses ago

    2 anos pra fazer 3 minutos de duração realmente decepciona bastante, mas ao meu ver, a obra ficou relativamente boa, os detalhes, gráfico, animações, tudo espetacularmente incrível e bem feito, afinal, isso tudo foi a mão, não?
    Pode ser um projeto experimental, mas pode ter criado uma nova forma de fazer anime.

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