Kimi no Na Wa, Hollywood e a dificuldade de adaptar um anime

Na última semana, uma notícia me chamou atenção. Tratava-se da compra dos direitos de Kimi no Na Wa (Your Name) pela Paramount Pictures. Inicialmente fiquei feliz, principalmente pela curiosidade de como essa história seria adaptada por um estúdio americano. Foi então que me lembrei de outras produções japonesas adaptadas, e comecei a ficar preocupado.

Dragon Ball Evolution, Ghost in the Shell, Death Note. Estes são só alguns exemplos de filmes baseados em animes que não tiveram uma boa recepção pela crítica e fãs. E quando digo isso estou usando um eufemismo, já que rolou até ameaça de morte para Adam Wingard, diretor de Death Note. Mas então quer dizer que o live-action de Kimi no Na Wa será mais uma grande decepção?

Bom, por enquanto nada está certo. Além disso, não acho legal julgar algo que não teve nenhum material divulgado. Falar mal de um filme pelo poster, trailer ou escolha do elenco é uma coisa, agora criticar apenas pelo anúncio não faz sentido. Mas é claro que se levarmos em conta seu histórico, é normal ficarmos com um pé atrás.

Em relação a Kimi no Na Wa, temos um ponto positivo que me deixa esperançoso: J. J. Abrams. Sua produtora, a Bad Robot, está envolvida com o filme, e dela saíram ótimas produções voltadas para o público nerd, como os novos longas de Star Wars e Star Trek, além de Missão Impossível (a partir do terceiro filme), que particularmente considero muito bons. O próprio J. J. Abrams já mostrou ser um otimista pela cultura pop, então confio nele para que entregue algo com uma relativa qualidade, mesmo que nunca tenha feito algo adaptado da cultura japonesa antes.

Mesmo assim, de todos as opções que existem, porque a Paramount escolheria logo Kimi no Na Wa? Se você ainda não sabe, este filme vem fazendo muito barulho por onde passa, principalmente sendo elogiado por crítica e público do mundo todo, inclusive nós do Trem do Hype. Por exemplo, ele chegou a ficar em primeiro lugar no ranking do site MyAnimeList, atualmente com nota 9,2/10.

Ele se tornou uma das maiores bilheterias no Japão, além de ter arrecadado US$ 355 milhões no mundo todo. O filme também ganhou diversos prêmios por onde passou, com exceção do Oscar, pelo qual nem chegou a ser indicado (ainda sem ter entendido o motivo). Aqui no Brasil, um mangá já está sendo publicado pela JBC e o lançamento nos cinemas está previsto para 11 de outubro (sujeito a mudança) pela Cinemark.

“Kimi no Na Wa” (Your Name) é a animação japonesa com maior bilheteria mundialmente, ultrapassando “A Viagem de Chihiro” (2001)

É incrível como Hollywood, mesmo tendo falhado constantemente, ainda continua tentando fazer uma boa adaptação japonesa. É o mesmo que acontece, por exemplo, com os filmes inspirados em jogos, que quase nunca empolgam. Mas diferente da maioria dos animes, Kimi no Na Wa não conta com elementos fantasiosos como um dragão que realiza desejos.

Além disso, o tema central é a troca de corpos entre os dois protagonistas, o que não é algo tão complexo de ser feito, reduzindo as chances de erro. Hollywood já fez algo parecido outras vezes, e até mesmo o Brasil, com a franquia Se Eu Fosse Você. Por ser um tema recorrente, é comum pensarmos que um novo filme do gênero fosse feito a qualquer momento, e por que não usar o nome de uma produção com um certo apelo do público?

A temática já foi usada por Hollywood em “Eu Queria ter sua Vida” (2011), “Tal Pai, Tal Filho” (1987) e “Sexta-Feira Muito Louca” (2003)

Na maioria das vezes, essa compra de direitos é usada, não para criar algo fiel ao material original, mas sim para se aproveitar de seu sucesso. É por isso que muitas vezes vemos adaptações tão “ruins”, pois na verdade não existe uma preocupação tão grande em adaptá-las. Normalmente apenas a ideia inicial é mantida (neste caso, a troca de corpos) e toda uma nova narrativa é criada.

Outro problema que se torna comum nas versões hollywoodianas é o whitewashing. Essa foi uma das maiores críticas em Ghost in the Shell e Death Note antes mesmo de serem lançados. Enquanto o resto do mundo foi contra a escalação, principalmente os fãs, os próprios japoneses acharam normal terem atores americanos nos papéis, já que se tratava de uma adaptação americana. Por outro lado, Seiji Mizushima, diretor do anime Fullmetal Alchemist criticou o live-action por só ter escalado atores japoneses e não ter escolhido um elenco mais diversificado.

De qualquer forma, parece que Hollywood aprendeu com as críticas e já está lidando melhor com isso. Por exemplo, os novos live-actions da Disney, como Rei Leão e Aladdin escalaram atores de etnias diferentes, e vêm recebendo elogios. Além disso, recentemente Hellboy decidiu corrigir o elenco antes de começar as gravações, substituindo Ed Skrein por Daniel Dae Kim para representar de forma culturalmente correta o personagem Ben Daimio. Mesmo assim, eu ainda acredito que a tendência não seja seguida em Kimi no Na Wa e realmente façam uma relocalização da trama.

Ed Skrein (Esquerda), Ben Daimio (Centro) e Daniel Dae Kim (Direita)

Portanto, não venha imaginando um elenco japonês em uma cidade japonesa com questões enfrentadas por japoneses. Ao invés disso, imagine a história se passando em uma cidade como Nova York (já que tudo acontece lá), e que a troca de corpos aconteça entre jovens de etnias diferentes. Agora é só colocar um cometa na história e pronto: Está feita a adaptação live-action hollywoodiana de Kimi no Na Wa. É claro que tudo não passa de suposições e posso estar muito enganado, o que na verdade seria ótimo.

Mesmo parecendo ser uma história genérica, a animação se destacou pela forma como a trama é contada, os novos elementos da troca de corpos, a exploração dos mundos opostos dos protagonistas, a relação dos personagens, a qualidade visual e principalmente por não focar no romance, até porque não precisa. Mas não acredito que essas características sejam mantidas na versão de Hollywood. Acho até que podem fazer tudo ao contrário.

Mesmo que a TOHO, distribuidora do original, esteja envolvida, nada garante que eles tenham tanto controle sobre esta produção. Por conta disso, o sucesso nunca é garantido. Talvez ele venha com a Warner, adaptando Akira ou a Lionsgate com Naruto. O dia em que os EUA farão uma boa adaptação de um anime pode demorar a chegar, e possivelmente nunca chegue. Mas uma coisa é certa: eles vão continuar tentando.

  • Crítica | Alita: Anjo de Combate é a melhor adaptação de um mangá feita por Hollywood - Trem do Hype
    4 anos ago

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