Crítica | 1922 é uma bela demonstração do poder do criador

Imagine o cenário: início do século XX, área rural, conflito familiar, realismo fantástico, morbidez, homem contra a natureza e uma porção de metáforas. Parece que estou descrevendo uma obra literária que você leu (ou não) no colégio, mas é só 1922, filme baseado no conto de Stephen King. Com este lançamento, a Netflix fecha 2017, o ano temático do autor, com chave de ouro, oferecendo, não só uma de suas melhores adaptações, mas também um dos melhores produtos originais do serviço de streaming. Mas o que o torna tão especial?

Um dos principais motivos é a urgência de sua mensagem, uma vez que vivemos em tempos tão individualistas. 1922 é uma verdadeira carta de ódio à ganância, ao egocentrismo e a todos estes demônios que temos que enfrentar diariamente. Evidentemente, não é a primeira obra a abordar o tais problemas, mas poucas o fazem de maneira tão efetiva.

Tudo começa quando Arlette James, esposa do pequeno agricultor, Wilfred, resolve vender a terra da família para começar uma vida na cidade grande. Ele não gosta da ideia e convence o filho do casal a ajudá-lo a assassiná-la, para que ele possa manter a propriedade, que está no nome dela. Thomas Jane (que muitos devem lembrar pelo filme do Justiceiro, de 2004) está quase irreconhecível como Wilfred, um homem bruto e extremamente personalista. Sua falta de vontade de se adaptar à vida moderna é refletida em seu visual e modo de falar, completamente típicos do que se esperaria de um conservador isolado da sociedade. Porém, sua questão não é moral.

O personagem tem um comodismo e um orgulho que falam muito mais alto do que qualquer outra lógica, fazendo com que se mantenha enraizado às suas origens. Ele constantemente tenta se convencer de que a maneira que lhe foi ensinada é a correta e de que vai ser a melhor para seu filho, mas é difícil de acreditar que ele pensou em alguém além de si mesmo durante o processo (ainda mais com a narração em primeira pessoa, que revela seus pensamentos). Sendo assim, o personagem é o símbolo da resistência individualista, atropelando tudo e todos em seu caminho.

A interpretação de James é completamente funcional, desde sua concepção inicial, até o final do filme, onde o personagem já passou por uma grande transformação. Ele deixa de ser o homem confiante que era, e se torna uma pessoa fraca, impotente e assustada. A mudança reflete o ato de covardia extremo que ele cometeu, induzida por uma série de punições divinas (ou seja lá o que for), que nada mais são do que metáforas para a culpa que consome (ou ao menos deveria consumir) todos que destilam o mal. A mais presente e notável é a dos ratos, que não só traduz a repugnância de sua atitude, como impacta esteticamente. Assim como a atitude do protagonista, estes animais são o contra-ponto perfeito à serenidade e pureza da ambientação.

A direção de Zak Hilditch aproveita bastante este e outros elementos sombrios para causar incômodo. Ele busca uma experiência sensorial, e não, simplesmente, contar a história. Muito necessário, considerando a naturalidade com a qual as pessoas lidam com tragédias, em tempos de massificação de informações. Nos incomodando através de uma composição visual carregada, ele não permite que o impacto do crime diminua. O momento em que ocorre o assassinato, por exemplo, é extremamente lento e explícito, dando mais peso à situação.

Há também muita fúria em cada plano, gerada pela ênfase dos elementos enquadrados (quase como fotografias tradicionais) e a intensidade do som, que é, basicamente, o barulho dos ratos e a música amorfa (e estranhamente melódica) de Mike Patton. A trilha sonora, aliás, lembra bastante o trabalho de Mica Levi em Sob a Pele (2013) e Jackie (2016), o que é muito apropriado, considerando a falta de integridade do protagonista e a potência de sua punição. A edição é incisiva, permitindo uma orquestração perfeita destes componentes a fim de perturbar o espectador.

Infelizmente, as limitações do roteiro não permitem uma imersão maior. Provavelmente por conta do tempo limitado de duração (o filme tem menos de duas horas), a transformação de Wilfred não é tão orgânica quanto se esperaria. O tempo deveria pesar tanto quanto o que é retratado, para não amenizar o efeito para o público. Uma mensagem tão poderosa quanto a que a história se propõe a passar não deveria ser confundida com entretenimento escapista.

Os realizadores tentam aproveitar ao máximo o material que lhes é dado, mas o modelo de mercado não é compatível com o conteúdo. Acaba que as respostas do protagonista aos eventos que ele presencia são muito imediatas. Dá para entender que eles causam um impacto muito grande nele, pela natureza das mesmas, mas na maior parte do tempo não conseguimos vê-los atuando em sua mente. Só há uma sucessão de eventos bizarros ou trágicos, que vão ficando gradualmente piores, e o protagonista reage a cada um deles com uma solução diferente, trazendo, convenientemente, sua transformação. A sensação é de que o desenvolvimento é mais corrido do que deveria. Faltou que as condições de produção permitissem que os realizadores curtissem mais o material, como fizeram com os elementos visuais.

Mas isso não compromete as discussões que o longa pode trazer, que vão muito além do conflito do protagonista com os seus atos. 1922 flerta com questões sociais relevantes até hoje, como a herança patriarcal passada de pai para filho, a falta de adaptabilidade ao progresso e as consequências negativas que ambos podem trazer. Tudo bem que, neste último ponto, o texto se dá à liberdade de ser mais ingênuo e otimista que a realidade permite. Mas se nem no campo da fantasia tivermos liberdade de reagir a atos cotidianos de violência com toda a fúria e veemência que desejamos, o artista fica, realmente, desarmado. Claro que é muito mais recompensante quando, ao invés de entidades metafísicas, as figuras oprimidas ganham o poder de resposta, como acontece nos filmes de Tarantino, por exemplo. Mas também é bom ver o autor assumindo sua onipotência dentro da própria obra para variar, ainda que dentro das limitações mercadológicas.

Nota: 4 vagões – Ótimo

1922
4

Comentário do Crítico

1922 tem uma fúria muito particular, tornando-o incômodo, sombrio. e… fascinante.

3 Comentários

  • Victor Amâncio
    Victor Amâncio
    5 anos ago

    Nayara Abreu excelente crítica.

  • Nayara Abreu
    Nayara Abreu
    5 anos ago

    enredo errado ai, a briga é pela venda da terra que é herança do pai da mulher, e não a terra que eles moravam…! Mas boa crítica sim, a noção de egoismo e ganância…

  • Victor Amâncio
    Victor Amâncio
    5 anos ago

    Enredo enrado ( Laura Reis sadadi)

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