Crítica: Atômica tem estilo, mas se atropela no roteiro

Charlize Theron já provou, mais de uma vez, que é uma excelente heroína de ação. Isto ficou evidente em seu desempenho como a inesquecível Imperatriz Furiosa em Mad Max: Estrada da Fúria, de 2015. Ela trouxe a atitude e o peso dramático necessário para tornar a personagem, não só durona, mas crível. Ela tenta fazer o mesmo em Atômica, mas, infelizmente, a trama não contribui.

Aliás, não só a atriz, mas todos os elementos de Atômica revelam um potencial que não foi alcançado, por conta de um único fator: o roteiro. O filme quer levar o espectador para diversas direções que, sinceramente, não sei se ele está tão disposto a ir.

A trama se baseia na graphic novel The Coldest City, de Anthony Johnston e Sam Hart, que conta a história de uma espiã do MI6 que, durante a Guerra Fria, vai a Berlim, para recuperar uma lista com o nome de todos os agentes secretos atuando na União Soviética.

Em essência, Atômica é simples, apesar da temática rica. Adicionar meia dúzia de plot twists não torna a história mais inteligente, só mais difícil de acompanhar e, sinceramente, irritante. Para surpreender com uma virada, o filme tem que ter tudo muito bem estabelecido. Se todas as peças do tabuleiro são constantemente trocadas, o jogo não é mudado, ele simplesmente deixa de existir. Isto é exatamente o que acontece com este longa.

A pressa que o roteiro tem de partir para a próxima “grande surpresa” não permite que o público absorva as informações já dispostas. Chega um ponto em que o espectador fica boiando, impossibilitando qualquer conexão com as personagens ou situações expostas. Sem falar que, mais para o final, você já espera um twist, mesmo não sabendo exatamente do que ele vai se tratar. Talvez, sabendo que é um filme que exige paciência e perspicácia, seja possível acompanhar a trama, mas toda a campanha de marketing prometeu uma aventura de ação à la John Wick, até por ser dirigido por um de seus diretores, David Leitch.

O grande erro deste filme é até similar ao de John Wick: a trama se estende muito além do que deveria. Só que o longa de 2014, ao menos, mantém a simplicidade, dando mais destaque para o que as pessoas queriam ver: Keanu Reeves matando todo mundo. Parece que Atômica quis ser mais inteligente, mas não soube como. Uma pena, porque, até para isto, havia potencial. Quer ambiente mais narrativamente rico do que uma Berlim dividida pela Guerra Fria?

Porém, nem tudo está perdido. Mesmo não tendo tanta pancadaria quanto era de se esperar, quando ela acontece, é de encher os olhos. A direção de Leitch realmente extrai o melhor das belas coreografias, com uma câmera que, apesar de orgânica, não se distancia do confronto em nenhum instante. Ela se move com leveza e rigor, captando todos os elementos necessários para compreender a cena. Isto não só com relação aos objetos presentes, mas também ao estado emocional e físico de suas personagens, ponto em que Theron se destaca.

Há uma cena, em particular, que é de cair o queixo. Um plano sequência, que deve durar mais de dez minutos, com uma coreografia super complexa. Percebe-se onde ocorreram os cortes, mas tudo é tão bem costurado, que nenhum deles atrapalha o conjunto. Se Atômica fosse um curta-metragem só com esta cena, seria perfeito. É uma das melhores sequências de ação dos últimos anos. Nem imagino as horas de ensaio necessárias para realizá-la.

Vale destacar também outros aspectos técnicos. A montagem e o trabalho de som são excelentes, funcionando a favor das cenas de ação. Há um momento em que a montagem até contribui para a criação de sentido, numa espécie de elipse, que se encontra mais para o final do filme.

A cinematografia dispõe de uma paleta de cores bem diversas e limpas, tanto para o frio, quanto para as poucas cenas “quentes”. Apesar disto, há também uma certa artificialidade, necessária para transmitir a estranheza da atmosfera. Identifiquei um pouco de Sin City neste aspecto, pela forma como as personagens “saltam da tela” em algumas cenas. É muito interessante a maneira como a fotografia encontra a elegância no excêntrico. A mesma preocupação pode ser vista no figurino e na direção de arte.

Quanto ao elenco, este é composto por ótimos atores, que não têm muito tempo para brilhar. Entre eles, John Goodman, Toby Jones e Sofia Boutella. O único que se destaca, além de Theron, é James McAvoy, com uma daquelas performances que dá gosto de assistir.

Com tantos pontos positivos, é difícil de acreditar que Atômica não é um dos melhores lançamentos do ano. Mas, acreditem quando digo que, o roteiro realmente fez um grande estrago. Mais uma prova de que o cinema de ação precisa exigir mais de seus roteiristas. Nem sempre a pancadaria vale o preço do ingresso.

Nota: Dois Vagões – Regular

Atômica
2

Comentário do Crítico

Atômica é tecnicamente impecável, com sequências de ação espetaculares e atuações fortes de Charlize Theron e James McAvoy. Mas, infelizmente, o roteiro é falho demais para tornar a experiência realmente prazerosa.

  • Atômica 2 pode ser lançado diretamente em streaming | Trem do Hype
    3 anos ago

    […] Em Atômica, vemos Theron na pele de uma agente secreta do MI6. Ela é enviada para Berlim, durante a Guerra Fria, para investigar a morte de um colega e recuperar uma lista perdida de agentes duplos. O elenco ainda conta com James McAvoy, Toby Jones e John Goodman. Confira nossa crítica, clicando aqui. […]

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