Crítica | Bingo: O Rei das Manhãs se beneficia da nostalgia de um período intenso da televisão brasileira

Já vimos Batman versus Superman, Capitão América versus Homem de Ferro, então… nada mais justo do que adaptar para as telonas o maior confronto da cultura popular brasileira: Bozo versus Xuxa. Mesmo que o duelo seja retratado de maneira superficial, uma vez que Bingo: O Rei das Manhãs não é sobre isso, mas sobre a vida de um dos intérpretes do palhaço, Arlindo Barreto.

Aqui, seu nome é alterado para Augusto Mendes, da mesma forma que o seu alter-ego, Bozo, é chamado de “Bingo”. Mas não é só ele que tem o nome mudado: a Rede Globo vira “Mundial”, SBT vira “TVP” e a Xuxa… bom… a Xuxa vira “Lulu”. A única personagem que mantém o nome verdadeiro é a nossa rainha da internet, Gretchen, que teve um papel fundamental na ascensão de Bozo Bingo.

Mas nenhuma das alterações faz grande diferença, já que a caracterização é muito bem feita. Por exemplo, só de ver dois segundos do “programa da Lulu” na TV, sabemos que se trata de Xuxa. Neste quesito, o roteiro é muito bem resolvido. Ele conta com a capacidade do espectador de fazer os links certos e, se não fizer, ainda é possível aproveitar o filme como uma obra ficção. Até porque a produção toma várias liberdades, além dos nomes diferentes.

Quem conhece minimamente a história do personagem Bozo, aqui no Brasil, vai perceber que o filme junta a trajetória dos vários atores que o interpretaram na figura de Augusto. Arlindo Barreto, que teoricamente é o objeto de estudo do longa, foi apenas a terceira pessoa a usar o nariz vermelho para o SBT, mas o roteiro o trata como o primeiro. Porém, tudo indica que a maior parte dos elementos que compõem a vida privada do protagonista foram, de fato, tirados da vida de Barreto, inclusive seu problema com as drogas, que ganha um papel central na trama.

Mas, mesmo assim, o filme realmente não se esforça muito em se prender aos fatos, o que deu muito mais possibilidades à trama. Se por um lado, esta decisão deu mais liberdade para a inserção de certas piadas e momentos surreais, por outro, acabou deixando de lado o que havia de interessante na realidade.

A luta pela audiência entre a Globo e o SBT, mostrada pelos bastidores do programa do Bingo, poderia ter tido muito mais destaque na trama, justamente por ser um dos poucos filmes de ficção brasileiros com oportunidade de abordar esta história. Mas o filme mostra só o básico para chegarmos do ponto A ao ponto B, privando o público do gostinho de vitória em cada conquista do protagonista.

Outro ponto da história que é prejudicado é o próprio conflito interno do artista. Nós vemos Augusto consumindo cocaína e álcool, e se viciando aos poucos, mas não há um verdadeiro peso no fato. Fica parecendo que o vício e os problemas na vida dele não estão relacionados.

Por exemplo, nos momentos em que ele negligencia o filho, é por conta do trabalho, ou algo relacionado ao mesmo, como eventos sociais ou depressão, e não necessariamente por conta das drogas. A impressão passada é a de que, se ele não as consumisse, sua vida estaria quase tão caótica quanto.

Tal idéia poderia até ser explorada, realizando um estudo de personagem mais profundo, mas a possibilidade é jogada fora, quando todos os problemas da vida dele passam a ser associados ao seu vício, por pura conveniência do roteiro. Quando precisaram arrumar um culpado para sua queda, pegaram o mais óbvio: o abuso de substâncias.

Alguém poderia até argumentar que o seu problema com as drogas serviu de aviso para levar sua vida de maneira diferente, mas não houve tempo suficiente para desenvolver esta resolução de forma minimamente satisfatória. O tempo que poderia ser investido nisso foi gasto, justamente, em cenas envolvendo o uso de drogas por pura recreação. Isto torna o elemento, que toma tanto tempo da trama, um pouco avulso.

A impressão que tive é a de que os realizadores procuraram seguir a fórmula Lobo de Wall Street de contar a história de ascensão, imprudência e (a inevitável) queda. Fórmula que já foi vista e revista desde muito antes do próprio filme norte-americano ter sido lançado, e que tem sido replicada em outras produções mais recentes, como Tim Maia (2014), Straight Outta Compton (2015) e Cães de Guerra (2016). Se o filme fosse mais preso à realidade dos fatos, vai ver não teria sido tão convencional.

Dito isso, podemos ir aos pontos positivos de Bingo, que não são poucos. Para começar, vale destacar o trabalho do ator Vladimir Brichta. Ele convence como Augusto Mendes, um adulto com a carência e teimosia de uma criança, que busca, desesperadamente, aprovação. É um personagem que poderia ter ficado muito irritante, mas o charme do ator não permite que isso aconteça.

Mas isso não é nada comparado ao seu desempenho como o palhaço Bingo, que parece outro personagem, de tão bem que ele está. Há, inclusive, uma cena em que Augusto está fazendo um teste para ser o apresentador do programa, e podemos ver claramente a transformação. O impacto que o produtor estadunidense sente em cena, é  o mesmo que atinge o público no cinema. Parece que estamos vendo Augusto atuar como o palhaço, e não Vladimir. Conseguir usar tantas máscaras de maneira convincente não é fácil, mas ele o faz com maestria.

Neste aspecto, devo também parabenizar Daniel Rezende pela direção de ator. Em seu primeiro longa-metragem, ele mostrou que não é só um baita editor, mas também um diretor muito competente. Ele usa e abusa de movimentos de câmera complexos, como longos planos-sequência e travellings, mas não de maneira exibicionista. Rezende respeita cada cena, traduzindo os sentimentos que cada uma deveria transmitir. Não se pode exigir mais do que isso de um diretor.

A maior parte do elenco de apoio funciona bem, com destaque para Leandra Leal, que faz a produtora e diretora do programa do Bingo. A atriz tem um boa química com Brichta, mesmo com uma personagem tão diferente da dele. Ela consegue desenhar o retrato de uma mulher que mantém a integridade, mesmo sendo constantemente provocada e testada pelos personagens masculinos, principalmente o protagonista.

A outra grande estrela do filme é o próprio ambiente em que a história se passa: o Brasil dos anos 1980. Claro que é um recorte limitado, sendo a história de um apresentador do SBT, mas a direção de arte consegue transportar o espectador para a época, através da reconstituição do cenário do programa do Bozo, que não é idêntico ao original, mas suficientemente similar para acordar a criança dentro de todo o adulto que acompanhava o palhaço nas telinhas.

As músicas também ajudam a estabelecer a época, e são bem inseridas na trama, desde a recorrente 99 Luftballons, à escandalosa Conga, Conga, Conga, que introduz triunfalmente a cantora Gretchen (interpretada por Emanuellle Araújo), num dos melhores momentos do filme.

Mesmo não se arriscando muito, até o roteiro tem seus momentos de ousadia, ao retratar a resistência de Augusto com relação ao modelo de produção norte-americano. São momentos que ressaltam a irreverência do brasileiro, uma generalização extremamente equivocada, mas que aqui ganha um sentido.

Bingo: O Rei das Manhãs pode até ser mais uma cinebiografia qualquer, mas é uma que tenta falar sobre a importância das identidades, num mundo que constantemente exige que as pessoas se vendam… E o faz com muito estilo.

Nota: 3 vagões – Bom

 

 

Bingo: O Rei das Manhãs
3

Comentário do Crítico

Bingo; O Rei das Manhãs tem uma boa história e um elenco de primeira, mas não alcança todo seu potencial, por dar mais destaque a certas convenções.

2 Comentários

  • José Gabriel Fernandes
    José Gabriel Fernandes
    5 anos ago

    Felipe Poppe

  • Felipe Poppe
    Felipe Poppe
    5 anos ago

    Gostei mto da crítica ze

  • Bingo: O Rei das Manhãs está fora da corrida pelo Oscar - Trem do Hype
    5 anos ago

    […] de pré-selecionados para disputar o Oscar de melhor filme estrangeiro foi divulgada. O brasileiro Bingo: O Rei das Manhãs, de Daniel Rezende, não está […]

Deixe um comentário

Seu email não será publicado

Start typing and press Enter to search