Crítica | Blade Runner 2049 não é uma continuação, é um upgrade

O clássico da ficcção científica, Blade Runner, não foi tão bem recebido quando foi lançado, em 1982. Compreensível, se considerarmos que esta adaptação do livro de Philip K. Dick se difere, em quase todos os aspectos, das típicas aventuras hollywoodianas. Para começar, há uma série de questionamentos filosóficos, que, na direção de Ridley Scott, ganham muito mais destaque do que perseguições frenéticas e tiroteios, sob uma ótica muito inspirada no cinema noir e no Expressionismo alemão.

Mesmo com tantos elementos reconhecíveis, há uma originalidade inquestionável no universo criado, em termos de detalhe e ambientação. Ele é tão vasto e rico, que permitiu que Denis Villeneuve criasse algo completamente novo dentro do mesmo. Porque, não se engane, Blade Runner 2049 é mais do que uma continuação do primeiro: é uma obra autoral de Villeneuve.

Por que digo autoral? Simples: em cada plano, é possível reconhecer o diretor. A maneira com a qual ele conduz cada cena é a mesma que pode ser vista em alguns de seus melhores filmes, como Sicario (2015) e A Chegada (2016). Villeneuve não terceiriza a tarefa de intensificar as cenas de suspense ou ação para outros departamentos, com uma trilha sonora gritante ou uma edição frenética. Tudo está no registro da câmera e seu tempo. Todos os elementos dispostos são utilizados de maneira muito econômica e elegante.

Como consequência, há uma intensidade enervante em praticamente todas as cenas, até nas mais calmas. Nestas, muitas vezes transitórias, a trilha sonora está muito mais presente do que, digamos, nas cenas que envolvem tiroteios ou explosões. Isto porque Villeneuve entende que a ação está toda na espera e na expectativa. Os momentos mais violentos falam por si só. Estes não precisam de interferências externas para serem efetivos, se o espectador já estiver preparado. Desta forma, as manifestações de violência ou emoção se tornam quase catárticas.

Mas não se pode dar todo o crédito a Villeneuve, porque sua abordagem não funcionaria se os outros recursos narrativos não fossem tão bons. Para começar, temos a deslumbrante cinematografia de Roger Deakins, que mais uma vez se mostra um mestre da arte. Parece que ele está literalmente desenhando os cenários com as profundas sombras e fortes luzes da cidade, realçadas pela nitidez dos planos. A paleta de cores varia de acordo com as características de cada atmosfera. Ou seja, em dados momentos, tudo é muito enevoado e limpo, enquanto em outros, predomina-se um laranja intoxicante. É um resultado belo e desconcertante ao mesmo tempo.

O mesmo pode ser dito da penetrante trilha sonora de Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch. A música possui uma fantasmagoria meio cyberpunk, típica de outras grandes ficções científicas, como Ghost In The Shell (1995), Sob a Pele (2013) e o próprio Blade Runner original. Porém, não só a trilha sonora, mas todo o desenho de som é muito mais notável aqui do que em seu antecessor. Me arrisco a dizer que ele é fundamental para toda a tensão do longa se sustentar. A trilha entra nos momentos certos, dando muita ênfase ao silêncio e aos sons ambientes, quando ela se ausenta.

Dentre os mais recentes filmes de Villeneuve, este é o mais contemplativo (sim, mais do que A Chegada). Porém, ele nunca fica lento ou pesado demais, não só pela beleza plástica de cada quadro, mas também pela edição precisa, que não mostra mais que o necessário. É uma abordagem diferente do que se espera de uma ação ou ficção científica atualmente, mas é um exagero considerá-lo o melhor dos dois gêneros dos últimos anos, como alguns críticos afirmaram.

Blade Runner 2049 não é perfeito, mas todos os triunfos técnicos desviam nossos pensamentos de certos detalhes mais específicos da trama. Um deles é a falta de desenvolvimento de determinados personagens ou temas. As cenas que mais entregam isso são as que envolvem o personagem de Jared Leto.

Sua atuação está num nível diferente das de seus colegas. Suas falas são muito mais líricas, soando quase como improviso. Algo comparável ao desempenho Rutger Hauer no original. Porém, ao contrário do personagem de Hauer, não há uma motivação clara para seus atos, o que dificulta a desfrutação de sua presença. A própria trama exige que ele esteja distante do resto, como um deus, mas se não há uma justificativa plausível para isso, seus trejeitos ficam muito gratuitos. Parece mais uma forma de maquiar a superficialidade do personagem. Não é um problema de atuação ou direção, mas de roteiro.

Outro ponto negativo é a previsibilidade de certos eventos. Por ser essencialmente uma história de detetive, é compreensível que haja muitos segredos a serem revelados. Porém, alguns deles são óbvios desde a primeira pista. O mais importante, que envolve o protagonista, está praticamente entregue desde o início do filme. Felizmente, o roteiro se corrige à tempo, providenciando novos questionamentos tão interessantes quanto os do original (se não mais). Muito se fala do valor de uma vida e o que fazer para não torná-la descartável, como o primeiro o fez, mas ainda trabalhando com conceitos como protagonismo e ego.

Por falar em “protagonismo”, o roteiro chega a apresentar uma alternativa para a fraca representação feminina ao longo da trama. Ele abre margem para um revisionismo mais contundente no futuro da franquia, que, desde o primeiro filme, é muito problemática neste aspecto. Tudo bem que todos os replicantes seriam, por essência, objetificados. Porém, fica clara a diferença nesta objetificação, quando, no caso das mulheres, está sempre associada ao sexo. Ao invés de oferecer um contra-ponto satisfatório a isso, como Mad Max: Estrada da Fúria (2015) e Sob a Pele fizeram, os Blade Runner se entregam ao erro.

Claro que nem todo filme precisa debater a questão dos gêneros. Afinal, cada história tem uma proposta diferente. Este é um dos baratos do cinema. Porém, quando um filme flerta com determinadas questões, e não se aprofunda nas mesmas, ele perde a oportunidade de trazer algo novo para a mesa. Além de correr o risco de perpetuar certas representações que, hoje em dia, estão super datadas. As personagens que mais fogem disso são as de Robin Wright e Sylvia Hoeks, mas não há desenvolvimento suficiente em nenhuma das duas para que elas deixem uma marca, reduzindo-as a figuras quase caricatas.

Por outro lado, o que falta de desenvolvimento para maior parte dos personagens coadjuvantes é compensado pelo tempo investido no protagonista K, interpretado por Ryan Gosling. Não, ele não é um mero dispositivo para nos guiar pela trama: K é a trama. Ele também não é uma versão atualizada de Deckard. Seu grau de ambiguidade é muito menor que o do personagem de Harrison Ford, tornando-o mais humano e exigindo muito mais do ator.

Felizmente, Gosling tem talento e competência para dar conta do recado, entregando uma de suas melhores atuações e o solidificando ainda mais como um dos maiores atores de sua geração. É como seu personagem em Drive (2011), mas com muito menos controle. K não internaliza seus sentimentos por falta de vontade, mas por falta de capacidade. Ele é um homem que não se conhece plenamente, abrindo espaço para muitas dúvidas quanto a sua identidade, a partir de certas provocações. Eu até diria que é um baita avanço em relação a Deckard, um dos personagens mais canastrões de Ford. Pelo menos ele ganha uma profundidade maior neste novo filme, dando a Ford um desafio mais a sua altura.

Aliás, por que não dizer? Blade Runner 2049, no geral, é um grande avanço em relação ao clássico. É importante respeitar o seu legado, mas não podemos privá-lo de certas críticas, que não podem ser feitas ao novo: um filme muito mais atraente, coeso e imersivo. A sequência não é nenhuma divisora de águas como o primeiro, mas isto é muito mais relacionado ao contexto histórico em que foi lançado do que à qualidade em si. Não digo isso por conta da tecnologia mais avançada disponível hoje em dia, até porque não é isso que mede o valor de um filme. Digo isso porque Villeneuve tem uma visão muito mais particular e fascinante do universo criado por Scott. É o típico caso do aprendiz que supera o mestre.

Nota: 4 vagões – Ótimo

Blade Runner 2049
4

Comentário do Crítico

A habilidade de Villeneuve para compor suspense é colocada em bom uso em Blade Runner 2049. Isto, sem mencionar todas as especificidades técnicas que tornam o filme o mais interessante do ano, neste sentido.

Sobre o Autor /

Formado em cinema, amante de quadrinhos e produtor de conteúdo para o Trem do Hype

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