Crítica | Bom Comportamento é cinema ficcional em sua forma mais pura

Em Bom Comportamento, o novo trabalho dos diretores Josh e Benny Safdie, o ator Robert Pattinson é Connie Nikas, um homem que vive à margem da legalidade. Em determinada ocasião, ele traz seu irmão, um jovem com deficiência mental, para um assalto ao banco. Ele acaba preso, fazendo com que Connie tenha que libertá-lo, antes que ele sofra algum mal-trato por alguém que não conhece sua condição. O filme gira em torno desta corrida contra o tempo, em que ele tenta arrumar o dinheiro para pagar a fiança.

Durante a trama, o protagonista toma diversas decisões, no mínimo, questionáveis (para não dizer “erradas”). Se pararmos para pensar em suas atitudes e falas, sem muito esforço, percebemos que ele é completamente egoísta. Mas o filme mal dá tempo para julgá-lo, uma vez que estamos o acompanhando na busca por um objetivo plausível. Então, cada vez que ele passa a perna em alguém, bate um certo incômodo, mas não o suficiente para se revoltar, porque quando percebemos, já estamos ali com ele, curiosos para saber o que vai acontecer a seguir. É quase como se houvesse uma cumplicidade do espectador, ao mesmo tempo que este torce para que algo de ruim aconteça, para que a história continue pulsante, mantendo seus olhos na tela.

Este magnetismo se deve, em primeiro lugar (e de maneira mais manipulativa), à trilha sonora contagiante de Daniel Lopatin, que pontua toda a ação do filme. Em segundo lugar, mas não menos importante, à ambientação e fotografia naturalistas. Não há cores inventadas, ou luzes vindo do além. Até os artificios visualmente apelativos, como as luzes de Neon, se comunicam diretamente com a ambientação, que, apesar de ser na grande e famosa Nova York, não é nem um pouco reconhecível para os não-locais. Não há Times Square, Empire State, Estátua da Liberdade, ou outros cartões postais, tão utilizados no cinema. Nem mesmo os prédios são ostentados, há uma desromantização notável de todos os elementos presentes, que são vendidos pela mídia como algo paisagístico.

Isto torna tudo muito palpável, aumentando a sensação de que estamos vendo algo que se passa no mundo real, mesmo com toda a essência cinematográfica do roteiro. Acontecem coisas que só são possíveis num filme, mas não há uma espetacularização dos eventos por parte dos diretores. Tudo que os Safdie fazem é contar uma história, de maneira simples e direta, sem abrir mão de nenhum drama ou da gravidade das situações. A espetacularização fica por parte do público, e esta é a maior crítica que eles fazem. Para colocar de maneira simples, eles entregam tudo que o público quer ver, mas não como este está acostumado.

O mesmo é aplicado aos personagens. As pessoas que vemos no filme não são aqueles típicos yuppies, intelectuais burgueses ou trabalhadores ítalo-americanos, sempre presentes em obras que se passam em Nova York (Wall Street, Harry & Sally, Amizade Colorida, ou filmes de Woody Allen no geral). Aqui, a população mostrada é diversa, de diferentes cores e origens. As figuras que seriam as mais destacadas pelo cinema mainstream, na verdade, são desglamourizadas. Uma delas é a personagem de Jennifer Jason Leigh, que é uma moça de meia-idade, endinheirada e solteira. Durante sua curta participação, ela é extremamente mimada, imatura e manipulável, o que é aproveitado por Connie, que finge que se interessa por ela para ter acesso ao seu dinheiro. É uma inversão da figura da mulher bem-sucedida da cidade grande, sempre forte e independente.

O próprio protagonista é uma subversão da imagem do malandro americano, aquela figura complexa, com conflitos internos identificáveis e um charme incontestável. Connie, por outro lado, tem ideias imprevisíveis, até serem colocadas em prática. O seu charme, que pode até ser efetivo dentro da história, não é comprado pelo espectador, já que é sempre utilizado para se aproveitar de alguém. Chega a ser patético, uma vez que suas intenções ficam claras, mas, ao mesmo tempo, admirável, pela sua engenhosidade. Ele é a face da América moderna, à princípio atraente, mas, no fundo, extremamente competitiva, implacável e vazia.

Taí a esperteza em escalar Robert Pattinson para o papel. Sua face foi um produto altamente comercializado por muito tempo. Afinal, ele era o galã da saga Crepúsculo, um grande exemplo de cinema comercial, que fisga somente quem cai pelo seu apelo (não que haja um problema em ser fisgado). É uma lógica mercantilista cruel, que foi trazida para o campo da arte, e é colocada em discussão aqui, mesmo que de maneira sútil.

Felizmente, Pattinson vai além de um utensílio para a construção de um argumento. Ele mostra muita habilidade no papel, com um cinismo ácido e uma intensidade intimidadora, mas sem engrandecer o personagem. Me lembrou bastante um jovem Robert De Niro, ou Al Pacino, mostrando que ele tem potencial para grandes feitos, com um bom roteiro em mãos. O resto do elenco também funciona bem. Em momentos, nem parece que eles estão atuando, tamanha a naturalidade com a qual a narrativa é conduzida. Entre eles, eu diria que o destaque é Buddy Duress, que está presente nas sequências mais afetadas do filme. Uma, em particular, é um flashback divertidíssimo narrado e protagonizado por ele, que prende o espectador imediatamente pela proposta diferenciada dentro da própria trama.

O papel de seu irmão, interpretado por Benny Safdie (isso mesmo, um dos diretores) também é fundamental. Connie tenta arrastá-lo para o seu mundo, mas ele não consegue acompanhar o ritmo por ser uma pessoa que vive em outra sintonia com o universo. A convivência com o protagonista (lê-se aqui “modernidade”) não abre espaço para estilos de vida diferentes do dele, sendo altamente destrutiva, mesmo que imposta de maneira inocente. Talvez Connie realmente acredite que está ajudando o irmão, mas parece mais um desejo egoísta de tê-lo por perto a qualquer custo. Mas não tem como saber de fato, pois o filme não entra muito nesse mérito. Não há tempo (literalmente) para conflitos internos, discussões de relacionamento ou estudos psicológicos aprofundados. Tudo que temos são personagens peculiares inseridos em situações extremas e buscando sobreviver a elas.

Na verdade, é difícil de resumir, em poucas palavras, o que é apresentado por Bom Comportamento. O filme revisita questões já exploradas por vanguardas do século XX, mas há muito “esquecidas” pela indústria. O longa dá margem para uma ampla discussão sobre a linguagem cinematográfica e sua relação com a época em que vivemos, mas isto vai depender do tipo de espectador que vai assisti-lo. O pior que se pode esperar é um thriller empolgante e bem executado, com um grau de honestidade que dificilmente se vê nos filmes do gênero.

Nota: 5 vagões – Excelente

 

Bom Comportamento
5

Comentário do Crítico

O novo longa dos irmãos Safdie retoma características esquecidas pelo cinema mainstream, sem abrir mão do frescor e senso de originalidade.

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