Crítica | Doentes de Amor traz relato pessoal fascinante em forma de comédia romântica convencional

Quem não gostaria de ter um filme sobre sua vida? Afinal, as pessoas tendem a supervalorizar as próprias vivências. Todos já devem ter pensado, pelo menos uma vez, na célebre frase “minha vida dava um filme”. E por que não? Todas as histórias têm potencial para se tornarem lindas obras de arte, dependendo da forma em que são contadas. No caso dos roteiristas Kumail Nanjiani e Emily V. Gordon, uma comédia romântica foi a escolha que fizeram para moldar suas trajetórias, o que é completamente apropriado, considerando que Kumail é um comediante profissional, e se trata de uma história de amor. O problema é quando o filme se prende demais aos moldes do gênero, não oferecendo nada de particular. É o que parcialmente acontece em Doentes de Amor: uma típica comédia romântica, apesar de oferecer, sim, certas peculiaridades.

Em partes, isto é graças à trajetória de Kumail, que também estrela o longa. Ele vem de uma tradicional família paquistanesa, que vive nos Estados Unidos, mas se mantém completamente fiel a sua cultura. Isto já coloca um conflito diferenciado em relação a outros filmes do gênero. O que impede o casal de se unir não é um(a) ex ciumento(a), um fator psicológico ou uma briga fútil, mas todo o contexto em que os personagens estão inseridos. Tendo crescido nos Estados Unidos, o protagonista se sente mais integrado à cultura local do que à de seu país natal, mas como não quer arrumar problemas em casa, esconde isso. Porém, quando uma pessoa especial, que não se encaixa nos padrões aceitos pelos pais, entra em sua vida, o conflito se atenua. Ele deve praticamente escolher entre sua família e a mulher que ama. Tudo bem que a ideia não é exatamente nova, mas por se tratar de uma cultura específica, praticamente invisibilizada pela indústria cinematográfica ocidental, fica a sensação de que estamos vendo algo inédito.

Mas não confunda isso com exotismo, até porque o roteiro foi co-escrito pelo próprio Kumail. Ele está dando sua visão sobre a realidade na qual viveu durante toda sua vida, trazendo um toque casual. Isto causa uma identificação, tanto com ele, quanto com os outros membros de sua família, principalmente nos momentos de descontração e na forma de se relacionar. A pressão para arrumar uma namorada, o incentivo para fazer faculdade (de medicina ou de direito, de preferência), as comparações com algum familiar mais bem-sucedido e todas aquelas típicas situações de mesa de jantar estão presentes, e são fundamentais para entendermos o Kumail e as expectativas com as quais deve corresponder. Quando vemos o protagonista lidando com essas questões, o filme se torna potente, e parece que estamos vendo um verdadeiro relato do ator/co-roteirista.

O seu romance com Emily também funciona, pela adição de situações pouco usuais, que realmente colocam o seu amor em teste. O principal deles, e que serve de premissa para o filme, é quando ela é hospitalizada, levando-o a interagir com os pais dela, sem sua companhia. Com isso, o segundo ato inteiro gira em torno desta relação, ao invés do desenvolvimento do casal, o que também é interessante. Isto mostra como relacionamentos amorosos, na sociedade em que vivemos, nunca são tão simples. Na prática, não temos que ser aceitos somente pela pessoa que amamos, mas também por todas as instituições às quais ela pertence, sejam estas a família, os amigos, a religião e até mesmo a própria natureza, uma vez que a doença entra no caminho dos dois. Desta forma, o filme nos mostra que o amor é bem mais complicado do que duas pessoas se gostando, mas não com a carga depressiva que poderia ter. Por ser uma comédia romântica, Doentes de Amor é bem leve.

Porém, como comédia, ele se arrisca muito pouco. Todos os clichês do subgênero estão presentes, desde os amigos excêntricos que se acham mais engraçados do que realmente são, aos atos de auto-humilhação para reconquistar a amada (apesar desses momentos serem um pouco mais criativos, no caso). Até mesmo os diálogos e situações mais intimistas, entre o próprio casal, soam um tanto familiares, e quase previsíveis. O que segura nestes momentos (que compõem boa parte da história) é o excelente elenco, que consegue estar quase tão natural quanto Kumail, que realmente viveu aquelas situações. Destaque para Zoe Kazan, que faz a Emily, e Holly Hunter, que faz sua mãe. As duas incorporam perfeitamente as características peculiares de suas personagens, soando muito mais como pessoas reais do que como estereótipos, que facilmente poderiam ter sido (a “garota alternativa apaixonante” e a “mãe temperamental”). Só duas atrizes muito habilidosas para realizar tal feito. Elas merecem todas as indicações a prêmios que provavelmente receberão pelos papéis.

Sendo assim, Doentes de Amor tem alguns aspectos interessantes a oferecer para espectadores com pouca paciência para comédias românticas mais convencionais, mas risadas não estão entre estes. Porém, se você é um fã de carteirinha do subgênero, que sai de casa para conferir até o mais básico dos lançamentos, não perca esta simpática história de amor.

Nota: 3 vagões – Bom

Doentes de Amor
3

Comentário do Crítico

Doentes de Amor se destaca mais pelo elenco de primeira e as questões abordadas, do que pelo humor.

1 Comentário

  • Thor: Ragnarok, Mulher-Maravilha e Logan estão entre os indicados ao Critics Choice Awards - Trem do Hype
    5 anos ago

    […] – Doentes de Amor […]

  • Mulher-Maravilha está entre os 10 melhores filmes do ano para o American Film Institute - Trem do Hype
    5 anos ago

    […] – Doentes de Amor […]

  • Antonia Almeida
    4 anos ago

    Não sou muito fã das historias de romance, mas este filme é realmente extraordinário. É uma história muito diferente e original, o filme superou as minhas expectativas, o ritmo da historia nos captura a todo o momento. O ator, Kumail Nanjiani é excelente! Sua comédia é natural e ele é autêntico. Seu trabalho de dublagem também é ótimo, em Lego Ninjago é sensacional! É um dos filmes mais divertidos que já vi, e um excelente filme infantil , gostei muito como se desenvolve a história, o roteiro é muito divertido para pequenos e grandes, em todo momento nos fazem rir. É um filme que sem importar o estado de animo em que você se encontre, irá lhe ajudar a relaxar um pouco.

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