Crítica | Jogo Perigoso é uma experiência difícil, mas recompensadora

Parece que 2017 está sendo o ano para redescobrir a obra de Stephen King, um dos maiores novelistas dos últimos tempos. De vez em quando surge uma adaptação ou outra de algum de seus livros, mas só nos últimos meses já tivemos duas para a Netflix e duas para o cinema. Uma delas, It, o filme de terror com maior bilheteria de todos os tempos. Os estúdios, obviamente, não vão mais perder tempo em explorar esta fonte tão rica.

Jogo Perigoso é a mais recente produção desta leva a chegar no Brasil, dirigida por Mike Flanagan, conhecido pelos terrores Hush e Ouija: Origem do Mal (ambos de 2016). Aqui, sua experiência com o gênero é útil, mas, mais do que causar medo, o filme se propõe a falar sobre o medo. O mesmo pode ser dito de It, só que ao invés de fazê-lo com um palhaço monstruoso perseguindo crianças, ele parte de uma premissa muito mais minimalista: Jessie (interpretada por Carla Gugino) fica presa numa cama, após um jogo sexual com seu marido, Gerald (Bruce Greenwood), acabar mal (para dizer o mínimo).

A partir disso, a trama se desenvolve, e vão surgindo diversas complicações no caminho da personagem. Porém, enquanto estamos assistindo, fica difícil de distinguir quais delas são reais e quais são pura alucinação. O diretor brinca com a linha tênue entre realismo e fantasia numa obra ficcional. Pelo contexto apresentado, às vezes até fica meio óbvio, mas o espectador nunca deixa de se perguntar se o que está sendo mostrado está realmente acontecendo. Isto se deve, não só à direção, mas também ao roteiro, repleto de metáforas visuais.

Pena que algumas delas são, literalmente, explicadas, através de linhas de diálogo expositivas que a protagonista tem com sua consciência (personificada nas figuras do marido e dela mesma). Na literatura já é ruim quando o autor subestima a inteligência do leitor… No cinema, então, é péssimo. Afinal, o cinema é (ou deveria ser) a arte do “não fale, mostre”. Nestes momentos, fica parecendo que a presença corpórea da consciência de Jessie está mais para uma bengala do que uma caneta. Porém, o filme surpreende: Ele não só acaba justificando a presença dos “fantasmas”, como também passa uma mensagem através deles (sem mastigar muito).

O roteiro consegue associar a fonte do medo da protagonista à figura de Gerald. Figura que não representa só uma pessoa, mas toda uma cultura de subjugação da mulher. Seu marido era só uma extensão de algo que ela sofreu a vida toda, assim como muitas outras sofrem. A atuação de Greenwood é fundamental para visualizarmos isto. O ator consegue passar perfeitamente o orgulho, sadismo e a impotência do personagem, sem abrir mão de sua humanidade. Ele não fica parecendo um vilão de desenho animado, só um homem completamente egocêntrico.

Em contra-partida, temos Carla Gugino representando a figura feminina através de uma versão mais confiante de Jessie, que é fundamental para a sobrevivência da protagonista. Gugino nunca esteve melhor, conseguindo expressar as diferentes camadas da personagem. Ela transita entre desespero, insegurança, propriedade e confiança com total naturalidade, dando a impressão de que as duas Jessies são realmente duas pessoas distintas. Esta abordagem nos ajuda a entender sua complexidade. Ela é uma pessoa que não reconhece a força que tem. Aí que reside todo o conflito da trama, que comunica diretamente a muita gente, pois a história dela é a história de diversas pessoas mundo afora.

Porém, para reconhecer sua força, ela passa por um verdadeiro inferno. Enquanto presa, ela não deve se preocupar só com seu bem-estar físico, mas também com sua sanidade mental, pois já sofreu muitos traumas ao longo da vida. Todos estes desafios são o que torna o filme tão difícil de assistir, porque há momentos extremamente explícitos. A protagonista passa pelos mais terríveis tipos de violência. Alguns deles, terríveis demais para olhar.

Para ser mais exato, há dois momentos em que quase tive que fechar os olhos. São dois tipos bem diferentes de violência, e um é muito mais assustador que o outro, ainda mais por envolver uma criança. Talvez, por conta deste, assistir ao filme pode ser um verdadeiro desafio. O diretor até tenta poupar detalhes mais gráficos, mas, ainda assim, alguém poderia argumentar que é uma exposição gratuita de uma situação muito séria. É algo que uma elipse resolveria facilmente. Então, para que mostrar? Só para incomodar?

Bom, são questões muito relevantes, mas complexas demais para responder. É mais um daqueles momentos em que questionamos o limite da arte (se há algum). Será que certas brutalidades devem ser retratadas? Isto pode afetar profundamente espectadores mais sensíveis a determinados temas, que só buscavam um entretenimento escapista. Mas será que, seguindo este raciocínio, acabamos criando certos tabus, e deixamos de discutir, efetivamente, assuntos que devem ser discutidos? É um debate que não tem fim, e prefiro me abster dele no momento.

A coisa mais útil que posso fazer quanto a isso é avisar para quem ainda não viu o filme: Jogo Perigoso não é para todos. Se você não consegue suportar cenas de extrema violência e tensão, não veja. Você estará se poupando de uma experiência muito desagradável. É uma adaptação de Stephen King que vai muito além das outras neste quesito.

Agora, para quem não busca conforto no cinema, vale a pena assistir. Ele tem seus defeitos e, até certo ponto, parece que vai seguir um caminho fácil. Porém, chegando ao final, os vários minutos de tortura física e psicológica que assistimos ganham um sentido dentro da trama. Nós testemunhamos o amadurecimento emocional da personagem ao vê-la enfrentando seus maiores medos. Ela passa de vulnerável à intimidadora, ou melhor, inspiradora. É um exercício de empoderamento muito efetivo e satisfatório. Claro que os métodos utilizados para alcançar o resultado podem ser questionados, mas acho que um possível erro não desmerece a obra como um todo.

Nota: 4 vagões – Ótimo

Jogo Perigoso
4

Comentário do Crítico

Talvez Jogo Perigoso mostre mais do que deveria (ou precisa), mas o resultado final é potente e sua mensagem é inspiradora.

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