Crítica | O Matador é tecnicamente bem feito, mas não passa disso

A Netflix estava numa onda de acertos com relação aos seus filmes originais. De Beasts Of No Nation (2015) a Wheelman (2017), o serviço de streaming tem se mostrado um competidor de peso no mercado, assim como um porto seguro para autores poderem trabalhar em suas obras. Noah Baumbach, Bong Joon-Ho e até mesmo Martin Scorsese, estão entre os consagrados nomes que a empresa conseguiu atrair. Então, quando sua primeira produção nacional é anunciada, é natural sentirmos empolgação. Porém, infelizmente, O Matador não alcança as expectativas.

O novo filme de Marcelo Galvão (Colegas; A Despedida) tem estilo. Tecnicamente, oferece o melhor que se pode esperar, tanto na fotografia quanto na montagem e na edição de som. Considerando que é uma produção da Netflix, com acesso aos seus recursos, isto não é nenhuma surpresa. Mas na parte que interessa, O Matador falha em entregar.

A história começa quando um rapaz e seus filhos são parados na estrada por dois indivíduos supostamente ameaçadores. Ele é obrigado a contar uma história para eles. No caso, a história de Cabeleira, um assassino profissional que atuava no interior de Pernambuco. Com a narração do rapaz, o filme centra na trajetória do “matador”. A escolha é interessante, por introduzir um quê de literatura oral, algo muito característico da cultura popular (pelo menos antigamente). O filme, no geral, se preocupa bastante em manter uma certa autenticidade com relação ao local em que a trama se passa, com este toque de sabedoria popular e uma imersão completa na desértica paisagem do sertão. Porém, ele só o alcança num nível superficial, porque o roteiro em si apresenta muito pouco da realidade da região, e isto fica visível até mesmo para os não-habitantes.

Talvez não fique tão visível assim para pessoas de fora do Brasil, o que explica muito as liberdades que a produção toma. Ao inserir um alto grau de exotismo, ele fica mais chamativo e atraente para os assinantes da Netflix do mundo todo (inclusive do Brasil). Mas isto tem um preço: o filme fica completamente artificial. Se este aspecto ao menos servisse à trama, ou nos levasse a alguma conclusão, não haveria problema. A questão é que, ao longo do filme, vemos uma série de bizarrices que não se justificam, como um número musical do casal antagonista e um burocrata homicida com TOC. O mesmo acontece com a violência exacerbada. Parece que estes elementos só estão ali para chamar atenção e compensar pela falta de conteúdo. Uma pena, considerando a riqueza da ambientação e da época.

Sim, o roteiro tenta trabalhar com questões mais relevantes, como o coronelismo e a dominação do capital, mas tudo é ofuscado pelos exageros estéticos, tanto nas atuações caricatas do talentoso elenco, quanto nas demonstrações gratuitas de diversos tipos de agressão. Claro que estes elementos estão presentes em boa parte da filmografia mundial, inclusive nas de grandes autores, como Stanley Kubrick ou Quentin Tarantino, mas, diferentemente de Galvão, estes diretores procuram criar sentido com estes exageros, na construção de argumentos que comunicam com suas obras. O Matador chega a demonstrar potencial para fazer isso, mas vai se perdendo à medida que a trama avança.

Alguém poderia dizer que o longa engata completamente na fantasia, por justamente querer traduzir um Nordeste mítico para a tela, mas não há um contraponto para tornar isto evidente. Sem falar que a maior parte das invenções não possui nenhum fundamento com relação à região. No mínimo a reduzem a preconceitos, violência e promiscuidade, o que é bem desrespeitoso e ignora a rotina de maior parte da população local. Não estou sugerindo uma romantização da vida sertaneja, mas o oposto disso pode ser tão prejudicial quanto, se não mais. Parece até que os realizadores tiveram um olhar estrangeiro sobre o próprio país.

O ambiente exótico e os personagens excêntricos, além de não representarem um Nordeste vasto e diverso, trazem uma péssima representação, não só para a região, mas para o país como um todo. Há os velhos clichês, como os sertanejos brutos e devotos, que além de estarem batidos, estão subaproveitados, assim como todo o entorno. Até a ideia de fazer um western brasileiro se torna menos atraente, com tantas intervenções vulgares e gratuitas de personagens que parecem ter sido tirados de um desenho animado cancelado. A ação por si só é bem executada, mas se todo o contexto em volta dela é frágil, não há uma real satisfação ao assisti-la. Faltava um conteúdo, ou talvez uma proximidade maior dos realizadores com o tema. Representar o Nordeste brasileiro é uma missão que requer muita propriedade e responsabilidade, e parece que não foi o caso aqui. Me perdoem a franqueza, mas no fim das contas, O Matador acaba sendo só mais um espetáculo para inglês ver.

Nota: 1 vagão – Ruim

O Matador
1

Comentário do Crítico

O filme evidentemente tem um alto valor de produção, mas isso não vale nada se não há uma boa história a ser contada.

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