Crítica | O Mecanismo se destaca mais por polêmica do que pela sua qualidade

Após o sucesso de 3%, fazia sentido a Netflix investir em mais uma série brasileira. A temática escolhida foi a corrupção e o nome à frente do projeto foi José Padilha, que tem no currículo dois Tropa de Elite, Robocop e Narcos, que conquistou seu público no serviço de streaming. Como resultado, tivemos uma produção que mais chamou atenção pela sua polêmica do que pela qualidade em si.

O Mecanismo é baseado no livro Lava Jato: O Juiz Sergio Moro e os Bastidores da Operação que Abalou o Brasil, do jornalista Vladimir Netto. Os acontecimentos da série são inspirados em eventos reais, mas não podemos esquecer que ela se trata de uma ficção. Mesmo que isso não esteja claro, todos os episódios começam com uma frase explicando que houve adaptações para efeito dramático, o que acontece com toda obra de ficção baseada em fatos reais.

A proposta da série é explicar, didaticamente como funciona o “mecanismo” que dá origem ao título. Para isso, são usados diagramas, analogias e outros elementos para provar que na corrupção não existe ideologia, além do quanto é difícil manter uma pessoa corrupta na cadeia, seja por motivos internos ou externos. Por outro lado, um dos recursos que não funciona é a “voz off”.

Mesmo que ele esteja presente em outras produções de Padilha, desta vez as narrações dos personagens foram usadas em excesso, tornando a série massante e cansativa. Em alguns momentos, os comentários são óbvios e redundantes, e em outros são conclusões que deveriam ser mostradas e não ditas. Além disso, o recurso não permite que a série tenha respiros ou simples momentos de silêncio. Outra questão é o ritmo da narração monótona dos atores Selton Mello e Carol Abras. Por outro lado, seus personagens se saem bem melhor.

Marco Ruffo (Selton Mello) é um delegado insatisfeito com a situação atual do país, mas que utiliza métodos incomuns para chegar ao seu objetivo, o que resulta em excessos de raiva e momentos explosivos por sua indignação. Enquanto Ruffo está nos bastidores da operação Lava Jato, quem participa ativamente é a delegada Verena Cardoni (Caroline Abras), que em certos momentos chega a assumir o protagonismo da série, com competência.

Do outro lado está o doleiro Roberto Ibrahim (Enrique Diaz), que vive um jogo de gato e rato com Ruffo. Sua personalidade debochada funciona muito bem como um contra-ponto em relação ao nosso protagonista, resultando em bons momentos de tensão quando estão juntos em cena.

A série ainda dá bastante destaque para João Pedro Rangel (Leonardo Medeiros), presidente da empresa “Petrobrasil”, também envolvido em esquemas de corrupção. Diferente de Ibrahim, seu arco também inclui sua família e mostra que o mecanismo atinge todas as classes sociais. Uma de suas cenas mais marcantes é quanto JPR é transferido de presídio, onde o medo e a paranoia do personagem são expostas como no gênero de terror.

O Mecanismo cumpre seu papel como série de ficção policial/investigativa, não ficando abaixo de outras produções da Netflix. A trama consegue ser inventiva e criar reviravoltas interessantes, como a do personagem vivido por Osvaldo Mil. Apesar disso, o interesse por ela acabou sendo maior pela polêmica do que pela própria série. Apesar de um início morno, vale a pena conferir os oito episódios.

O Mecanismo
3

Comentário do Crítico

A nova série investigativa da Netflix conta com problemas, como o excesso de “voz off”, mas a trama consegue explorar bem seus elementos e gerar um saldo negativo.

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