Crítica | Os Meyerowitz é surpreendentemente lúcido e afiado

No Festival de Cannes deste ano, havia uma grande expectativa por Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe. Não só por ser o mais recente filme do aclamado roteirista e diretor Noah Baumbach, mas também (e principalmente) por Adam Sandler estar no elenco. O fato do ator ser normalmente associado a comédias altamente comerciais e reprovadas por boa parte dos cinéfilos tornou sua presença no projeto, no mínimo, curiosa. Afinal, a história não envolve alienígenas disfarçados de video games, ou adultos fazendo criancices. Ok, até tem um pouco disso.

A trama gira em torno de uma família disfuncional, em que o patriarca, um escultor profissional, teria tido papel negativo sobre a criação dos filhos. Com a filha do mais velho (interpretado por Sandler) indo se mudar para o campus de uma universidade (de cinema, inclusive), ele resolve voltar a morar com o pai, tendo assim, uma oportunidade para se reaproximar dele. Mais tarde, seu irmão ausente, que se tornou um empresário bem sucedido, faz uma visita e resolve ficar na cidade para participar de uma mostra da obra do pai. Com isso, há uma série de discussões acaloradas e resoluções catárticas, filmadas de maneira bem sóbria. Algo incomum para Sandler, mas não inédito.

Em 2003, ele trabalhou com Paul Thomas Anderson no excelente Embriagado de Amor, pelo qual recebeu uma indicação ao Globo de Ouro. Ainda assim, isto aconteceu há mais de 10 anos atrás e, convenhamos, fazia tempo que o ator não apresentava um trabalho tão satisfatório quanto (por mais que todos amem Click).

A possibilidade de vê-lo brilhando novamente chamou a atenção até mesmo dos maiores críticos do comediante, e ele não decepcionou. Seu trabalho foi ovacionado em Cannes, tornando-o um dos possíveis vencedores do prêmio de Melhor ator do festival, o que não aconteceu (o vencedor foi Joaquin Phoenix). Mas só o fato dele estar no páreo já é incrível, abrindo portas para receber algumas indicações nas próximas premiações (apesar de eu não apostar na sua presença no Oscar).

Mas, agora, a pergunta que não quer calar: o hype é real? Adam Sandler está tão bem assim? Eu responderia que sim. O astro pode até não estar sempre inspirado, mas, caramba, como ele se entregou ao papel. Seu personagem é o típico caso da pessoa que se doa a tudo e a todos em sua volta, menos a si mesmo, tornando-o um homem muito triste, mesmo aparentando estar bem-humorado. Todo este conflito está notável na fisicalidade do ator, que carrega um cansaço mesmo em momentos leves com a família. Seu olhar, sua postura, seu caminhar… Todos estes detalhes falam muito mais do que qualquer linha de diálogo. E quando ele não está aparentemente cansado, está explosivamente surtado. Nas duas formas, Sandler entrega como deveria, talvez até por ter muito em comum com o personagem. Afinal, ele passou anos tentando divertir o público que, atualmente, o rejeita. É, talvez este seja o papel que o comediante nasceu para fazer.

Porém, não podemos tornar Os Meyerowitz “o filme em que Adam Sandler está bem”, porque o longa oferece mais do que sua performance, inclusive no próprio elenco. Dustin Hoffman, Emma Thompson e Ben Stiller são alguns dos nomes que compõem esta talentosa família. Por incrível que pareça, dos citados, Stiller é o que mais se destaca. Não é a sua primeira comédia dramática e nem mesmo o seu primeiro trabalho com o diretor, mas o seu desempenho aqui é quase tão surpreendente quanto o de Sandler. Ele consegue passar toda uma gama de sentimentos com muito pouco. Com os olhos, a presença, o caminhar… Sua atuação não deve em nada e talvez seja a mais complexa do filme, já que seu personagem tem tudo para ser odiado, mesmo não podendo ser.

O oposto deve ser dito de Harold, interpretado por Dustin Hoffman. Mesmo sendo uma figura adorável, ele tem que gerar uma antipatia no espectador. Isto fica mais por conta da história do personagem, do que pela interpretação de Hoffman, dando espaço para que ele faça o que sempre fez de melhor: interpretar figuras excêntricas. O seu nível de experiência faz até parecer fácil, mas nunca é. Só um mestre para nos fazer esquecer disso.

Eu posso estar romantizando o trabalho destes atores, mas o próprio filme coloca a figura mítica do artista em cheque. Afinal, o que é a arte? Por que ela vale tanto (ou tão pouco)? Para quem ela vale? Todos estes questionamentos são levantados por Baumbach, que os responde de maneira bem “pé no chão” e até mesmo cética quanto ao seu próprio ofício. A arte, no sentido convencional da palavra, pode ser limitada, mas o que verdadeiramente vale alguma coisa são nossas experiências, nossos afetos e o que deixamos de herança para o mundo. Para o personagem de Hoffman, seriam seus filhos. A cena em que eles estão numa galeria, expondo os trabalhos do pai, deixa essa ideia muito clara.

Mas há pequenos detalhes ao longo do filme que reforçam o argumento como um todo. Os exemplos mais notáveis são os curtas da filha do personagem de Sandler, interpretada por Grace Van Patten. Eles são propositalmente exagerados, para expôr a inocente (e pretensiosa) visão que muitos jovens artistas têm sobre seus trabalhos, muitas vezes achando que estão revolucionando a linguagem ou trazendo novas discussões para a mesa, como alguns realmente o fizeram.

Mas por que as obras destes prodígios das artes valem mais do que as mal-acabadas tentativas de impressionar alguém? Para um pai dedicado, talvez o pequeno filme da filha valha mais do que qualquer Godard por aí. Já para um filho carente, a escultura inexpressiva do pai pode falar muito mais do que qualquer obra de Anish Kapoor. As pessoas constantemente usam a arte como pretexto para a interação humana que, no final das contas, é o que mais importa para a maioria.

Baumbach segue nesta direção, se afastando da ideia romantizada de criação e dando destaque para a finitude de nossas pequenas aventuras artísticas, por mais que não as vejamos de tal forma, dentro de nossos próprios egos inflados. Ele o faz de maneira bem simples: tornando as relações entre os personagens muito maiores do que as peças de arte presentes. Por isso, as falas são tão expositivas e artificiais. Os sentimentos e intenções dos personagens ficam bem em evidência, fazendo com que suas ações digam mais do que qualquer obra. É nos detalhes que Baumbach esculpe seu forte argumento, que é muito bem-vindo num meio, por vezes, tão deslumbrado.

Mas, é claro, o próprio realizador não escapa de certas imperfeições. O seu foco nos personagens de Sandler e Stiller ocupam tempo que poderia ter sido investido, por exemplo, na personagem de Elizabeth Marvel, a irmã da dupla. Talvez ela seja propositalmente negligenciada pela trama (dialogaria com a proposta do roteiro até), mas não parece, já que há uma tentativa de se aprofundar no passado dela. Porém, não é suficiente, tornando-a mais decorativa do que, efetivamente, um elemento fundamental para a história. Para colocar de maneira mais clara, se ela não existisse, pouco mudaria no filme.

O mesmo pode ser dito da personagem de Emma Thompson, apesar de, no caso dela, haver uma contribuição maior para a proposta de Baumbach. A sua relação com a culinária ajuda a construir a tese do filme, assim como as esculturas de Hoffman, a paternidade de Sandler, o empreendedorismo de Stiller e os curtas de Van Patten. Thompson está ótima, como sempre. Pena que não tem tanto tempo de tela.

A arte vem em todas as formas e de todos os lugares, de um quadro elaborado a uma discussão familiar. Os Meyerowitz: Família Não se Escolhe é um pouco sobre isso, e também sobre a relação de dois filhos com um pai. Mas, acima de tudo, o filme é sobre as limitações do ser humano e como o afeto consegue superar todas elas, até mesmo a morte (física ou simbólica). Vale ser assistido, e pensado, pois à princípio, o longa parece ser muito mais simples do que realmente é.

Nota: 4 vagões – Ótimo

Os Meyerowitz
4

Comentário do Crítico

Os Meyerowitz é uma grata surpresa do diretor/roteirista Noah Baumbach, com seus levantamentos sobre a arte, a vida e em que ponto as duas se tornam a mesma coisa.

1 Comentário

  • Saíram as indicações do Gotham Awards 2017 - Trem do Hype
    5 anos ago

    […] – Adam Sandler (Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe) […]

  • Paulina Barbosa
    4 anos ago

    É um filme bom e muito interessante, sinto que história é boa, mas o que realmente faz a diferença é a participação de Adam Driver neste filme. O elenco deste filme é ótimo, eu amo tudo onde Adam Driver aparece, o ultimo que eu vi foi em um dos melhores filmes de comedia chamado Lucky Logan Roubo em Família, adorei esse filme! De todos os filmes que estrearam, este foi o meu preferido, eu recomendo, é uma historia boa que nos mantêm presos no sofá. É espetacular. Pessoalmente eu acho que é um filme que nos prende, tenho certeza que vai gostar, é uma boa história. Definitivamente recomendado.

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