Crítica | Para os desavisados, Mãe! é uma armadilha perfeita

No Festival de Cannes do ano passado, os irmãos Dardenne foram questionados se o filme que tinham apresentado, La Fille Inconue, estaria passando uma mensagem sobre a crise imigratória na Europa. A trama é sobre uma médica que tenta identificar uma menina morta, após ter negado atender a mesma. Muitos jornalistas viram uma potencial metáfora na premissa. Como resposta, os diretores afirmaram: “Uma vez que tenha sido visto, o filme pertence aos espectadores”.

Esta frase pode soar como um clichê, mas, na prática, acaba sendo verdadeira. Por mais que o artista se esforce para deixar suas ideias claras, no fim das contas, é o espectador que sempre vai fazer o filme funcionar (ou não) ao atribuir um sentido aos elementos expostos.

Nada disso é novidade, mas Mãe!, o mais novo trabalho do aclamado diretor Darren Aronofsky, joga a relação entre cineasta e espectador para outro nível. Fazia tempo que não se lançava algo tão polissêmico nos cinemas. O fato dele ter sido produzido e distribuído pela Paramount, uma grande empresa hollywoodiana, torna sua existência ainda mais surpreendente. É uma grande demonstração de poder, ou moral, de Aronofsky.

Não que a produção tome muitos riscos do ponto de vista técnico ou mercadológico. Afinal, ele é estrelado por Jennifer Lawrence, considerada, por muitos, a maior atriz de sua geração. Ela está ótima como sempre, com uma presença que, literalmente, ancora a trama. O resto do elenco também não deixa a desejar, com destaque para Michelle Pfeiffer, que voltou para ficar (fazia tempo que não via a atriz numa forma tão ácida e maliciosa). O trabalho de som, a fotografia, a edição e todas as outras especificidades técnicas também estão impecáveis, com exceção, talvez, dos efeitos especiais, que estão um pouco artificiais. Mas nada que comprometa a divulgação do filme, que se sustentou na proposta de ser mais um terror psicológico.

Eu não diria que o longa se enquadra no gênero terror (ou em qualquer outro), mas certamente pega emprestado convenções suficientes para se vender como tal. Este é um traço comum na obra de Aronofsky, mais notável em Réquiem para um Sonho (2000) e Cisne Negro (2010). Assim como nestes dois exemplos, ele esbanja da habilidade de manipular emocionalmente o espectador a fim de construir um incisivo discurso moral. A única (e fundamental) diferença em Mãe!, é que tal discurso pode ser aplicado a qualquer discussão, abrindo um precedente extremamente inusitado.

Eu sempre tento permanecer o mais imparcial possível nas minhas críticas, mas, neste caso, é muito difícil (se não impossível). Este até pode ser um dos trabalhos mais autorais de Aronofsky, mas ele revela mais sobre o espectador do que sobre o próprio autor.

Vou admitir que o filme não me desceu bem, por conta da leitura a qual me prendi. Eu poderia escrever parágrafos sobre ela, mas, ao fazê-lo, não estaria cumprindo a minha função de crítico. Longe de mim querer estabelecer regras para a classe, ainda mais quando estas não são tão bem definidas. Porém, acredito que expôr uma única interpretação, neste caso, seria intelectualmente desonesto, ou, no mínimo, imprudente. Como não posso dar conta de mais de uma nesta crítica, prefiro não entrar em detalhes.

O que cabe a mim, neste momento, é dar um alerta: Mãe! é perigosíssimo. O mesmo potencial que ele tem para criar, pode ser usado para destruir. É até irônico, considerando a história, mas isto não é motivo para piadas. É um filme que pode afetar o público de maneira extremamente positiva, ou negativa. Tudo depende da cabeça da pessoa que o consome. Então, esteja avisado antes de comprar o ingresso. Entre na sessão com uma mente muito aberta e disposição para ficar revoltado ou ofendido, se não satisfeito ou entretido.

Também é preciso dizer que, nas mãos da pessoa errada, esta obra pode servir de base para os discursos mais absurdos. Muitos poderiam até argumentar que é irresponsável lançar este filme no contexto em que nossa sociedade está vivendo. Não sei se eu concordaria, mas é uma observação válida. Afinal, não se pode subestimar o poder da arte.

Tudo que um movimento precisa para ganhar força é legitimidade, algo adquirido através da construção de imaginários. Quem realiza isto são os jornalistas, publicitários, políticos e, é claro, os artistas. Mesmo não-intencionalmente, um autor pode contribuir para a pior das causas, como ocorreu com Nietzsche, na Alemanha Nazista. Mesmo que Mãe! não tenha, nem de perto, a mesma projeção, é sempre um risco. Vale a pena tomá-lo em nome da arte? Talvez esta seja uma das questões do filme, mostrando que, no final das contas, Aronofsky pode ter noção das consequências de suas ações. Pelo menos, seria muita coincidência se não fosse.

Mas, reforço, seria um equívoco acusar a obra de assumir alguma posição. Não só um equívoco , mas também uma injustiça. Nós nunca vamos saber o que se passou na cabeça de Aronofsky ao escrever o roteiro. Talvez, nem ele saiba, por mais esclarecido que tenha parecido nas últimas entrevistas.

Sendo assim, eu diria que Mãe! deve ser debatido, mas não amado, odiado, ou até mesmo julgado. Eu, ao menos, não me vejo na posição de fazê-lo. Tudo que me resta é esperar para descobrir o seu lugar na história.

Sem nota

 

Mãe!

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