Death Note é inferior ao original, mas não tão ruim quanto dizem

Nesta sexta-feira, a Netflix disponibilizou seu live-action de Death Note, e como todas as adaptações americanas de obras japonesas, esta também não agradou ao público. Mesmo influenciado pelas críticas negativas, ainda decidi assistir ao filme fazendo uma análise isolada, e o resultado não foi tão ruim quanto as pessoas estão descrevendo.

Antes de tudo, é preciso entender que ele é apenas baseado na obra original, e isso estava claro desde a escalação do elenco. Esta decisão refletiu em uma nova abordagem, sendo totalmente localizado em um típico ambiente escolar americano. Aqui é aproveitado o plot, onde as pessoas morrem ao terem seus nomes escritos em um caderno, incluindo os dilemas que isso pode trazer para a vida de um adolescente, como o questionamento sobre o que é a justiça.

Light é um garoto que vive cercado de injustiças, que vão desde a morte de sua mãe até um valentão se aproveitando de alguém mais fraco, e o caderno é a maneira que ele encontra de resolver esses problemas. Até aqui tudo estava indo bem, mas eles resolveram introduzir o romance entre Light e Mia. A relação começa apressada demais, mas acaba se desenvolvendo de forma que contribui para a trama.

Existe uma referência a Adão e Eva (incluindo a maçã), onde Mia representa todos os desejos obscuros do protagonista. Enquanto Light apenas quer matar as pessoas que cometem crimes, ela quer ir além disso e tirar de seu caminho todos que possam atrapalhar o plano dos dois. O filme passa a retratá-los como um casal de bandidos que fica cego pelo poder que tem em mãos.

A introdução de L é muito bem-vinda, trazendo para o live-action todas as manias estranhas que o personagem tem no anime, mesmo que elas não sejam explicadas em nenhum momento. Ele funciona como um bom antagonista, fazendo com que muitas das vezes a gente torça por ele e não por Light. Sua relação com Watari também é bem estabelecida, demonstrando sua dependência emocional como um ponto fraco do detetive.

Em termos de interpretação, L é mais exigido que os demais atores, principalmente pela sua personalidade caricata. Inclusive, ele é um dos poucos que mantém essa característica do anime. Por outro lado, Williem Dafoe provou ser o ator perfeito para viver Ryuk. Mesmo sendo pouco explorado e destoando com o ambiente em que foi inserido, ele ainda consegue roubar a cena nos momentos em que aparece.

O filme conta com um bom ritmo narrativo, mas se destaca pelo seu último ato, quando vemos Light se tornar o mais próximo do que vemos no anime. Ele começa a história como um personagem ingênuo e passivo, mas precisa se adaptar às situações e demonstra mais da sua inteligência, mesmo que isso aconteça um pouco tarde. Não é o protagonista que conduz a história, pois ele dificilmente toma uma atitude, sendo apenas levado pelas ações dos outros personagens.

O roteiro ainda conta com alguns furos, que devem incomodar principalmente os fãs do anime. As coisas são resolvidas por meio de causa e efeito, deixando todas as reviravoltas para o último ato. O problema é que muita coisa acontece, o que poderia ter sido melhor distribuído ao longo do filme. Fica muito claro que a história foi feita para atrair um novo público, em sua maioria jovens americanos. Para que ela fosse apresentada a eles, foi preciso adaptar alguns elementos, explorar mais do romance e deixar algumas questões de lado, mas a essência de Death Note está lá.

Visualmente, o filme não chama atenção por nenhum aspecto específico, mas é notável que as mortes receberam um maior destaque. Elas lembram as que vemos na franquia Premonição, tanto pela explicitude quanto pelas causas, que as tornam ridículas em alguns casos. Mesmo assim, um dos maiores erros do filme está em sua trilha sonora.

As músicas escolhidas quebram todo o clima das cenas, contrastando com o que está sendo mostrado em tela. Em muitos momentos isso acaba gerando um certo desconforto, como se algo estivesse errado. Se esse recurso foi usado propositalmente, não funcionou para mim. Como exemplo, a sequência final tem como plano de fundo a versão americana de “Como uma Deusa” (É sério).

Death Note também tem um grande problema quanto ao tom que pretende estabelecer. Ele tenta ser um filme de terror, de romance, de investigação, e não decide seu gênero. É como se estivéssemos assistindo vários filmes diferentes em um só, além do tempo de duração não ser o bastante para contar tudo que precisava ser dito.

Em comparação com sua obra original, Death Note é inferior, mas ainda consegue extrair entretenimento se o analisarmos isoladamente. A ideia da adaptação é apresentar uma história já contada antes para um novo público e, quem sabe, despertar algum interesse pelo material original. Desde o começo sabíamos que o live-action teria muita coisa diferente e isso que foi entregue, mas infelizmente com um potencial desperdiçado.

Nota: 2 vagões – Regular

Death Note
2

Comentário do Crítico

Apesar das fortes críticas que recebeu, Death Note consegue fazer um trabalho ok, adaptando o que pôde para transportar a história japonesa até os Estados Unidos. É claro que o material original ainda se mostra superior, mas isso não desmerece o live-action.

Deixe um comentário

Seu email não será publicado

Start typing and press Enter to search