Crítica | A Juíza

A cinebiografia Suprema, de 2018, deu certo sob um ponto de vista protocolar. Uma intressante, se não pouco inspirada, dramatização dos eventos que precederam a notoriedade de Ruth Bader Ginsburg – atual Associada de Justiça da Suprema Corte dos Estados Unidos conhecida por sua luta por igualdade. É uma história importante, com um instigante confronto de perspectivas sobre a militância política, mas que pode ser um pouco limitado para quem quer conhecer a figura por trás da lenda. Tudo é muito artificial.

Nesse caso, um bom complemento para quem quer conhecer melhor a vida da RBG é A Juíza, que chega aos cinemas nesta quinta (23). O longa, que foi indicado ao Oscar de melhor documentário, faz melhor trabalho informativo e funciona mais como entretenimento. A dupla Julie Cohen e Betsy West busca um retrato completo da personagem, desde sua infância no Brooklyn até o momento atual, quando se torna um ícone da cultura pop. Elas o fazem através de depoimentos de familiares, amigos, colegas e, é claro, da própria Ruth Bader Ginsburg. Mas, ainda que dependa de tantos depoimentos, o longa não se resume a um monótono talking heads.

Através da montagem e do material de arquivo, as diretoras conseguem criar cenas enérgicas e cheias de significado. Só a sequência de abertura já é fortíssima, com várias estátuas de homens sendo acompanhadas por falas de outros homens depreciando a protagonista. Muito mais do que uma introdução, o breve momento resume toda a sua luta para trazer pautas igualitárias. Unida à clássica The Barber of Seville Overture, de Gioachino Rossini, o prólogo ganha uma musicalidade e um bom humor – esse que, por sua vez, é mantido ao longo do filme.

Apesar do documentário evidentemente buscar enaltecer a figura central, ele está longe de ser muito reverente, já que a própria RBG é espirituosa e constantemente parodiada em diferentes meios. Em cena marcante, a juíza assiste à imitação que Kate McKinnon fez dela no SNL – e reage de maneira bastante simpática.

Apesar da imagem positiva que o longa naturalmente cria, ele não foge de algumas discussões sobre possíveis equívocos, como o fato dela ter decidido se manter atuante no Supremo. Isso é motivo de críticas, pois há quem acredite que, se ela tivesse se aposentado na gestão Obama, o ex-presidente poderia ter apontado um bom nome para a Corte. Esse ponto é tocado discretamente, mas é positivo que o documentário não seja bitolado e ponha para debate algumas controvérsias. Mas esses ocupam pouco tempo de tela, pois as suas virtudes e feitos são muito mais numerosos e notáveis.

Algumas cenas, inclusive, se utilizam do Voice Over para criar cartelas com frases icônicas da personagem, e elas nunca soam muito condescendentes por conta das construções que as precedem. Os momentos de exaltação são merecidos, dada a apresentação dos problemas que enfrentou. É uma forma de conferir mais ênfase à sua argumentação brilhante e transgressora (ao menos para os conservadores com quem teve de debater). Assim, as diretoras conseguem transmitir o poder da jurista, além de dar o devido peso à sua trajetória – como a jornada de uma heroína.

Se por uma lado há a construção de uma lenda, os momentos mais íntimos, como os depoimentos de familiares, relatos sobre o falecido marido Marty e alguns detalhes de sua rotina (num segmento divertidíssimo, a acompanhamos na academia de ginástica), mostram a pessoa por trás disso. Além de ser importante para dar carisma à personagem, temos a sensação de que realmente a conhecemos – mesmo que isso seja impossível.

Claro que, apesar de engenhoso, não deixa de ser um documentário protocolar, com uma visão segura sobre uma figura popular. Nada contra isso, mas acaba que o grau de interesse no filme vai ser medido pela afinidade com a protagonista. Filmes com uma linguagem mais ousada e universal conseguem transcender assuntos e gêneros, sendo experiências estéticas mais estimulantes. Mas a verdade é que o objetivo não é – e nem deveria ser – esse. O legado de Ginsburg está acima de qualquer pretensão artística aqui, o que é plausível e admirável.

Considerando essa proposta, A Juíza é um documentário bem sucedido, pois consegue contar eficientemente a história de uma das estadunidenses mais importantes para a luta por igualdade no campo político-jurídico. Apesar disso, sua maior virtude talvez seja o comentário sobre os Estados Unidos atuais, que, através de sua juventude, redescobriram e renomearam essa guerreira da justiça social (por isso o nome no original é RBG), impulsionando suas aparições na grande mídia. É o tipo de recorte que nos enche de esperança por um futuro melhor, ainda que tudo isso possa não passar de uma grande ilusão – do tipo que só poderia ser proporcionada pelo cinema baseado em fatos.

A Juíza
3.5

Comentário do Crítico

A Juíza não reinventa a roda: é um documentário bastante convencional. Dito isso, ainda é competentemente executado, em especial no que diz respeito a roteiro e edição. Fica fácil aprender um pouco sobre as décadas de carreira de Ruth Bader Ginsburg – uma figura tão importante para a história dos Estados Unidos.

  • Rio2C 2019 | Diretora de A Juíza conta desafios de produzir documentário sobre Ruth Bader Ginsburg
    3 anos ago

    […] A Juíza (RBG) chega aos cinemas brasileiros no dia 23 de maio. Leia nossa crítica clicando aqui. […]

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