Crítica | Altas Expectativas desperdiça o potencial do relato de seu protagonista

Mais um dia, mais uma história de amor no circuito. Nada de novo neste departamento. Porém, Altas Expectativas, da dupla Pedro Antônio e Álvaro Campos, tinha potencial para ser algo mais significativo, por contar a história de uma figura que costuma ser muito mal representada pela sétima arte: a pessoa com nanismo.

No caso, a história é do humorista Gigante Léo. Como ele conheceu sua esposa, para ser mais específico. Cenas de seu espetáculo de stand up, que intercalam a trama, mostram seu talento para a comédia. Ele tem um humor ácido, mas honesto e criativo. Infelizmente, pouco disso é visto no resto do filme, apesar de seu bom desempenho como ator. O humor bate em todas as teclas erradas, desde piadas bem água com açúcar, mas pouco eficientes, a brincadeiras mais pesadas, que beiram o mal gosto (mesmo as que partem do protagonista). Porém, a maioria soa gratuita, como se o roteiro tentasse, de qualquer jeito, atrair a atenção do público através de excentricidades que não se justificam, tanto nas atitudes e falas dos personagens, quanto nos figurinos e no design de produção.

Mas este é só um dos problemas do filme. Se ele se mantivesse nos campos da comédia romântica e funcionasse como romance, haveria muito a se aproveitar. Não é o caso, porque o casal de protagonistas mal se conhece, antes de se apaixonar efetivamente. Muito tempo que poderia ser investido na relação deles, é depositada em seus dramas pessoais, envolvendo personagens secundários. Se o longa pelo menos funcionasse nesse nível, não haveria muito para reclamar, mas todos estes personagens secundários são trabalhados em estereótipos relativamente modernos, mas já datados, contribuindo muito para o humor afetado já mencionado.

Por exemplo, temos a amiga diferentona sem papas na língua, o hipster engraçadinho (com um canal no YouTube, porque é isso que os jovens fazem hoje em dia) e o pretendente malvado da mocinha, que só pensa em dinheiro. Mais forçado do que suas personalidades individuais, só a maneira com a qual se relacionam. As conexões entre eles são, na maioria das vezes, pouco fundamentadas e desnecessariamente convenientes. Por que a irmã do personagem de Milhem Cortaz conspiraria contra o casório dele? Há alguma rixa entre os dois? E por que ela, de repente, se apaixona pelo amigo hipster do Léo? Só por que ele é o único homem com o qual ela não tinha nenhuma relação afetiva ou familiar? Era realmente necessário que ela tivesse um interesse amoroso?

Os problemas não se reduzem só a esta personagem, é claro. Além dos já citados, temos uma dose de participações especiais de artistas brasileiros bem conhecidos, que não adicionam em nada à trama. São quase easter-eggs feitos para quem assiste ao Zorra Total e ao Programa do Faustão, o que seria super legítimo, se não fosse tão distrativo. Mas isto não é nada perto do merchandising extremamente intrusivo feito numa cena específica. Pode parecer um mero detalhe, mas quando a cena mais engraçada de um filme de comédia é um product placement descaradamente óbvio, podemos começar a ver o problema da obra. Eu queria dizer que foi proposital, mas nada presente na cena indica isso. Parece que ela só foi feita para ter esta menção honrosa a um dos maiores patrocinadores da produção.

Como se todas essas questões não bastassem, o longa ainda tenta dar diversas “lições de moral”. Uma delas, por exemplo, é sobre abraçar as diferenças, sempre respeitando o próximo, o que é super correto. Mas como o roteiro o faz? Através de diversas piadas envolvendo pessoas com nanismo, que chegam a constranger. É diferente do stand up do Léo, que tem um tom de relato e se torna engraçado por sua reação aos eventos citados.

Talvez se, esteticamente, a obra se adequasse à essência de seu personagem central (que podemos perceber na sua carreira como comediante), algumas destas piadas soariam mais naturais e pertinentes. Para alcançar este resultado, é preciso muito mais do que uma câmera subjetiva baixa, que apesar de ser interessante de se olhar, só oferece uma proximidade num nível superficial. Curiosamente, o momento em que o filme chega mais perto de realizar tal feito (além dos fragmentos do show dele) é durante os créditos, onde são mostrados registros da vida pessoal de Léo. São as únicas cenas que realmente soam como algo pessoal e valioso, e não um produto que visa agradar a todos, mas acaba ficando sem identidade.

Altas Expectativas é mais um exemplo de como uma boa história e um alto valor de produção não valem nada, se não forem devidamente explorados. A impressão que dá é que o resultado teria sido muito mais satisfatório, se só tivessem exibido o show do Léo, sem cortes. Ao menos haveria mais consistência narrativa, sinceridade e, consequentemente, graça.

Nota: 1 vagão

Altas Expectativas
1

Comentário do Crítico

Falta de sobriedade e consistência narrativa atrapalham relato pessoal de um personagem muito rico

Sobre o Autor /

Formado em cinema, amante de quadrinhos e produtor de conteúdo para o Trem do Hype

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