Crítica | Aos Teus Olhos – Roteiro primoroso reflete e discute sobre o poder do julgamento virtual

Talvez não exista – hoje em dia – algo mais poderoso do que as redes sociais. Toda semana surgem nelas histórias ou notícias que repercutem rapidamente. Acusações são feitas em instantes, antes mesmo da checagem dos fatos ou de uma devida denúncia na delegacia. Este é o tema abordado pelo intrigante Aos Teus Olhos, da diretora Carolina Jabor.

Baseado na peça O Princípio de Arquimedes, o longa conta a história de Rubens (Daniel de Oliveira) – um professor de natação infantil, que é querido por todos. A situação muda completante quando ele é acusado pelos pais de Alex de beijar o menino na boca, dentro do vestiário do clube. A acusação viraliza nos grupos de mensagens da escola, iniciando um julgamento sobre as ações e reais intenções do professor.

Apesar de compartilhar de algumas semelhanças com o ótimo dinamarquês A Caça (2012), Aos Teus Olhos tem uma atmosfera completamente diferente, pois nos traz o sentimento da dúvida desde o começo. O roteiro de Lucas Paraizo constrói bem a história, fazendo um belo trabalho em trazer cenas e diálogos que geram no público o questionamento se Rubens realmente teve tal atitude. Esse sentimento permeia até o último segundo, principalmente porque não somos apresentados ao ponto de vista da criança.

Além disso, o filme opta por não trazer o background de alguns personagens. Seria interessante saber mais sobre Ana (Malu Galli) e Davi (Marco Ricca), mas essa decisão se mostra muito acertiva, pois a desconfiança deles em relação ao professor é um dos pontos em que a diretora mais consegue trazer a reflexão sobre o assunto.

Carolina Jabor mais uma vez cria uma trama densa e muito forte. Diferente do Boa Sorte (2014) – seu primeiro filme – aqui ela não quer só abordar um tema polêmico, mas também refletir a sociedade atual em que vivemos, com muita veracidade e emoção. Em tempos de abusos, agressões e preconceito, o longa dela se torna não só relevante, mas também lança o discurso de como devemos ouvir todas as vozes, para que a vida do outro não seja destruída.

Mas todo esse sensacional resultado não existiria sem a brilhante interpretação de Daniel de Oliveira. Ele foi uma excelente escolha para a criação desse personagem ambíguo – em alguns momentos, Rubens é machista e agressivo e, em outros, carinhoso e educado. Através dos olhares do ator não sabemos se sentimos medo ou pena dele.

Também existem outros pontos de destaque: a edição de som, por Ricardo Cutz – principalmente na cena da acusação feita pela mãe de Alex (Luiz Felipe Mello). É essencial para ditar o clima e atinge em cheio o público (o som de mensagem do WhatsApp nunca foi tão incômodo); e a fotografia de Azul Serra, que mescla perfeitamente a transição dos tons pastéis para os escuros.

Aos Teus Olhos é uma aula de cinema. Tenso e intrigante do começo ao fim, com uma história humana e cheia de reflexões que nos leva a questionar sobre nossas atitudes. Sua curta duração não incomoda, pois o seu papel foi perfeitamente cumprido.

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O longa ganhou os prêmios de Melhor Filme do Júri Popular, Melhor Roteiro e Melhor Ator (Daniel de Oliveira) no Festival do Rio 2017. O filme estreia no dia 12 de abril.

Aos Teus Olhos
5

Comentário do Crítico

“Aos Teus Olhos” é sensacional. O filme é tenso e intrigante, trazendo uma trama envolvente que faz refletir sobre algumas questões sociais. Destaque também para os diálogos e a mixagem de som.

Sobre o Autor /

Um designer geek, cinéfilo de carteirinha, louco por livros e grande fã de Turma da Mônica e Mauricio de Sousa.

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