Crítica | Artista do Desastre é uma divertida metalinguagem cinematográfica

Recentemente, durante o Globo de Ouro 2018, James Franco venceu o prêmio de Melhor Ator em Comédia ou Musical por Artista do Desastre, desbancando nomes como Hugh Jackman e Daniel Kaluuya. Por este feito, a curiosidade sobre a qualidade deste filme aumentou, mas as expectativas foram superadas.

A trama gira em torno da produção do filme The Room (2003), que foi dirigido, roteirizado, produzido e estrelado por Tommy Wiseau. Em Artista do Desastre, James Franco, como diretor, soube aproveitar a oportunidade de contar uma história incrível. Já como ator, ele praticamente se tornou o próprio Tommy.

O longa começa desenvolvendo a amizade entre Greg Sestero (Dave Franco) e Tommy Wiseau (James Franco), dois estudantes de teatro com personalidades praticamente opostas. Enquanto Greg tem dificuldade de se expor em público, Tommy é uma pessoa extravagante e sem vergonha de nada. É nele quem Greg encontra a oportunidade de melhorar sua atuação.

O primeiro ato é focado nos dois personagens, e constrói a relação entre eles partindo do sonho que têm em comum de se tornarem atores profissionais de Hollywood. O resultado são momentos cômicos e divertidos, mas sem deixar de construir uma amizade sólida entre os dois.

O mérito está na química entre dois protagonistas, que é retratada de forma natural e autêntica. Também é empolgante vê-los correr atrás de seus objetivos, com os altos e baixos que se espera de uma carreira de ator. Só depois dos sucessivos fracassos de ambos que o filme nos apresenta a ideia de escrever e produzir The Room.

É então que começa o segundo ato do longa, onde passamos a acompanhar a trajetória de Tommy e Greg para fazer um filme. Artista do Desastre entra de cabeça na produção de fato, incluindo a compra de equipamentos, escolha do elenco e filmagens. Este é um dos momentos mais divertidos do longa, principalmente pelo diretor/produtor/roteirista não ter noção sobre o assunto.

Seja dentro ou fora do set, não somos privados dos momentos de tensão entre os realizadores, revelando o quão conturbado foi gravar The Room. O clima é o mais realista possível, quase de forma documental. Isso é reforçado pela escolha da câmera na mão durante quase todo o filme, que faz com que o público se sinta imerso na história.

Uma das coisas que mais se destaca durante o filme é o trabalho de atuação. Diferente de outros atores de comédia, que sempre interpretam a eles mesmos, aqui vemos uma fidelidade maior em retratar as pessoas reais. Isso fica ainda mais evidente em um dos momentos finais do filme, onde são colocadas, lado a lado, cenas das verdadeiras gravações de The Room e as cenas gravadas em Artista do Desastre. O resultado é praticamente idêntico, não só nos planos e timing, mas principalmente na interpretação.

Falando nisso, além dos atores principais, contamos com diversas participações especiais de peso. O próprio filme já começa com depoimentos de pessoas relevantes para a indústria como J.J. Abrams e Kevin Smith, falando sobre a relevância de The Room para o cinema. Ainda vemos Brian Cranston, Zac Efron, entre outras surpresas. Ainda vale citar as referências que Artista do Desastre faz a outras obras, com citações que vão desde Shakespeare até Hitchcock.

Mesmo que seja inspirado em uma história real e retrate isso de forma louvável, este ainda é um filme de comédia típico do James Franco. A sensação que temos é de que ele reuniu um grupo de amigos para gravar este filme, que não só tem cara, como realmente contou com um baixo orçamento (US$ 10 milhões).

A grande maioria dos alívios cômicos estão na atuação de James Franco como Tommy Wiseau, que já é uma pessoa divertida por si só, graças a sua personalidade. O filme não conta com exageros ou excessos, pois a história que ele conta já é ótima por si só.

Artista do Desastre tem como objetivo contar a trajetória de The Room desde o início, e isso não seria possível sem a amizade entre Tommy e Greg. No fim, é um filme que fala sobre persistência, e que até mesmo algo de qualidade duvidosa tem seu valor e pode tocar as pessoas. É um filme que inspira, mesmo não sendo sobre uma típica história de sucesso.

Artista do Desastre
5

Comentário do Crítico

Artista do Desastre retrata uma ótima história de forma fiel, abordando a produção de um filme em todos os seus aspectos e divertindo seu público do início ao fim

Sobre o Autor /

Formado em Cinema e Publicidade na PUC-Rio, colab do TechTudo, maquinista do Trem do Hype.

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