Crítica | Democracia em Vertigem

É natural que um filme como Democracia em Vertigem desperte paixões de diferentes tipos em seus espectadores. Em meio à crise política em que vivemos, o longa busca uma leitura bastante específica de eventos recentes – o que, certamente, pode frustrar aqueles que defendem fervorosamente outra visão, ou esperavam algo mais distanciado. Para esses, só se pode dizer o óbvio: um filme, seja este um documentário ou não, não tem obrigação nenhuma de ser imparcial ou impessoal – e, ainda que o tentasse, reproduziria um olhar particular em detrimento de outros. Já o juízo de valor sobre a obra (ou, melhor dizendo, sua “moral”) fica a critério de cada um e o seu entendimento do período histórico trabalhado (no qual ainda estamos inseridos, então novos desenvolvimentos devem surgir). Agora, se tem uma coisa que não se pode dizer do filme de Petra Costa, é que não consegue ser bem-sucedido dentro da narrativa que propõe.

O conjunto de entrevistas e documentos, moldado quase que na forma de um thriller político, torna-o não só uma cativante experiência estética, mas também um revelador retrato dos bastidores da cena política do Brasil no final do governo de Dilma Rousseff – o que faz dele um registro histórico relevante. Muitas entrevistas são gravadas em ambientes mais íntimos ou agitados, rejeitando um formato talking heads convencional e mostrando um lado mais humano dos personagens. Os corpos estão sempre no meio de uma ação, estejam consternados com seus problemas em locais reservados ou no meio de uma agitada manifestação pública. Em alguns casos, isso possibilita a adição de camadas a certas figuras, e, em outros, permite uma caricaturização bastante apropriada ao discurso. Ela acaba efetivamente criando esta saga épica sobre uma democracia em declínio (ou que nunca foi realmente plena), protagonizada por heróis trágicos e vilões oportunistas ou confusos. Pode parecer reducionista para alguns, mas funciona muito bem.

Como as situações são bastante variadas – com direito a ostentadores planos gerais da residência oficial da presidente e suas redondezas, em Brasília -, há uma versatilidade até quando a abordagem é mais austera. Às vezes, é uma câmera meio tremida no canto de um carro, ou a tentativa de capturar a declaração de um político em pleno deslocamento (isso sem mencionar as diferentes imagens de arquivo). É esse desejo latente de registrar o momento, de qualquer forma possível, que dá toda a urgência necessária para a proposta dar certo. Ao mesmo tempo, a constante alternância de ritmos e enquadramentos, aliados a uma montagem firme e ágil, dão esse verniz de thriller digno da frenezi passada pelos noticiários. Também vale ressaltar o senso de humor presente em algumas passagens, como quando são mostradas as diferentes falas de Lula em suas campanhas eleitorais. É uma sequência que assume a montagem como autora, com um didatismo que, por vezes, pode até soar conveniente demais, mas nunca deixa de parecer uma expressão genuína da artista (pelo menos mais do que uma tentativa de convencimento).

Nesse sentido, é um filme muito honesto, pois a diretora nunca se deixa distanciar, colocando até mesmo a história de sua família no centro da narrativa. Graças a isso, entendemos bem como se sente com relação às personalidades exibidas e seus papéis ali. Além de um amontoado de construções míticas dos personagens e uma dramatização dos eventos retratados, o filme é um desabafo sincero sobre as poucas chances de sobrevivência de ideais democráticos num ambiente dominado por interesses particulares.

Claro que, de certa forma, a obra se coloca numa posição confortável, se limitando a ser uma mera exposição de uma narrativa já pronta, corroborada por parte da opinião pública. O documentário apenas junta, de maneira engenhosa e poética, o que tem de material disponível para ilustrar tal perspectiva. É justamente no potencial dramático deste material, e na forma narrativamente habilidosa como é organizado, que reside a qualidade do filme, tornando-o envolvente até para os politicamente mais céticos. Não tenta ser uma obra de caráter informativo como Jango, de Silvio Tendler, apesar de ter um grau de empirismo importante para a consistência da trama.

E, mesmo se posicionando firmemente, a diretora-personagem tem a humildade de deixar lacunas para o espectador poder participar do diálogo. Ela não adota um tom alarmista ou chantagista que seria tentador para qualquer um engajado a uma verdade. No geral, busca passar mais melancolia do que qualquer outra coisa, e até quem não concorda com seus posicionamentos deve admitir que os sentimentos transmitidos são muito verdadeiros.

Em resumo, Democracia em Vertigem pode até ser um retrato simplista de uma conjuntura bastante complexa. Poderia ter sido mais desafiador enquanto exercício filosófico, se atentando mais ao contraditório e se prendido menos a um discurso já pronto. Pelo menos, aqui, tal discurso encontra uma condução elegante e um olhar suficientemente abrangente dentro de suas limitações. É uma interessante e inevitavelmente incompleta leitura do pesadelo político no qual nossa nação se enfiou. Que venham outras.

Democracia em Vertigem
4

Comentário do Crítico

Democracia em Vertigem é um retrato enérgico, engenhoso e íntimo da crise política na qual o país se encontra. A autora apresenta base considerável para a construção de sua narrativa, mas se conforta demais na mesma – o que o torna menos instigante do que poderia ter sido.

Sobre o Autor /

Formado em cinema, amante de quadrinhos e produtor de conteúdo para o Trem do Hype

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