Crítica | Ela Disse, Ele Disse

A época de colégio é considerada uma das fases mais turbulentas da vida. Em meio a tantas mudanças causadas pelos hormônios e os diferentes aprendizados curriculares, os jovens ainda precisam lidar com a socialização, adequação (ou não) em algum grupo, relacionamentos amorosos… São vários os desafios enfrentados. A escritora Thalita Rebouças sabe exatamente como dialogar com esse público, e agora, em Ela Disse, Ele Disse (seu quarto livro adaptado para os cinemas e segundo filme como roteirista), prova que seus textos continuam funcionando nos dias de hoje.

Os protagonistas Rosa (Duda Matte) e Léo (Marcus Bessa) são como a maioria dos adolescentes: mudam toda hora de decisão, discutem e se sentem inadequados, principalmente por serem os novatos do colégio. Logo, é compreensível as rápidas mudanças que os personagens passam. Com a quebra da quarta parede, o espectador compreende perfeitamente cada um deles e se diverte com as contradições entre o que estão pensando e falando. Entretanto, a utilização do som meta diegético (aquele que traduz o imaginário de uma personagem) nem sempre é eficiente, pois em certos momentos apenas revela algo já subentendido na cena.

Considerando que o livro foi publicado, pela primeira vez, em 2010, a adaptação trouxe algumas mudanças necessárias e pontuais que beneficiaram a construção da trama, como a maior inserção da tecnologia e das redes sociais. A rotina dos alunos da Escola Integrada Rebouças é marcada pelo uso dos celulares. Então, o filme acompanha essa modernidade com uma linguagem estilizada, inserindo onomatopeias e diversos grafismos. Ao mesmo tempo, os cenários e situações parecem perdidos no tempo, saídos diretamente de seriados juvenis dos anos 2000. O interessante casamento, aliado ao dinamismo com que tudo é apresentado, resulta em uma ideia bastante efetiva, com a direção competente de Claudia Castro. O incômodo fica por conta da sonoplastia, que insiste em repetir determinadas músicas com sentidos literais ao que está em tela.

Nesse encontro do “velho” e do “novo” reside uma das qualidades do longa, principalmente quando se observa a personagem Madalena (Maria Clara Gueiros). Ela é uma diretora que possui certo totalitarismo, não aceitando as mudanças e deixando de ver além do que acredita. Isso a impede de conversar com os alunos e entendê-los, criando um ambiente sufocante. O roteiro, também de autoria de Tati Ingrid Adão, caminha positivamente à compreensão de que precisa existir aberturas dos dois lados, para a existência de um lugar agradável, mas com regras. Mesmo que esse elemento seja colocado em segundo plano, já que o foco real é o humor, não deixa de ser funcional.

A decisão de tratar tudo com leveza gera um resultado divertido, mas que não livra da superficialidade com que algumas questões são abordadas. O maior inimigo, na verdade, é a duração, que faz com que o roteiro condense muitas situações e um ano escolar em apenas 80 minutos. Tanto que a parte do “Ele Disse” carece de mais cenas. A própria relação entre Rosa e Léo, por exemplo, não fica tão bem desenvolvida justamente por isso. No todo, o carisma e as atuações de Duda Matte e Marcus Bessa são o que nos fazem acreditar naquele romance. Duda cria uma personagem simpática com a timidez e expressões que faz, enquanto Marcus também acerta indo pelo mesmo caminho, e apresentando outras nuances.

Os elogios também se estendem à outros nomes do elenco. Maisa Silva, nessa segunda parceria com Thalita, demonstra boa entrega ao papel. O legal de notar em Júlia, sua personagem, é o desenvolvimento que foge do estereótipo e vai para o aspecto importante da sororidade. Destaque ainda para as bem-vindas participações cômicas de Maria Clara e Fernanda Gentil. Nota-se que todos personagens, inclusive os masculinos, ganharam uma pegada mais realista com relação ao livro.

Ela Disse, Ele Disse é uma adaptação gostosa de assistir, acertando no seu tom de humor. O elenco carismático torna o filme divertido, com um encerramento que quebra barreiras, mesmo que discretamente, ao abraçar a diversidade sexual. Apesar dos erros anteriormente citados, não deixa de ser um longa cativante para todo o público.

Ela Disse, Ele Disse
3

Comentário do Crítico

A adaptação discute temas da juventude com bom humor, além de apresentar um diálogo positivo entre as diferentes gerações. O incômodo fica por conta de parte do roteiro e determinados aspectos técnicos, que por vezes soam inconvenientes. Destaque para o elenco carismático, essencial para o resultado positivo do projeto.

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