Crítica | Ford vs Ferrari

Nos anos 1960, o automobilismo acompanhou um momento crescente dentro da indústria. Os carros de corrida estavam avançando em tecnologia e ganhando funcionalidades que ajudassem nas competições, consequentemente facilitando, também, o desempenho dos corredores. As empresas disputavam entre si para saber quem chegaria no topo de inovação e vitórias. Tanto que, nesse mercado, duas grandes líderes chamaram a atenção pela rivalidade, causada por divergências internas entre seus associados.

Por um ponto de vista, Ford vs Ferrari é justamente uma amostra de como se deu toda essa disputa empresarial. Quando, então, assistimos ao longa, entendemos que o trio de roteiristas Jez Butterworth, John-Henry Butterworth e Jason Keller decidiram contar essa história através das vivências de Carroll Shelby (Matt Damon) e Ken Miles (Christian Bale), fugindo do lugar comum de simplesmente narrar os fatos reais. Os questionamentos vividos pelos protagonistas nos dão uma clara noção de como o corporativismo pode afetar drasticamente as vidas dos envolvidos. Junte isso à direção precisa de James Mangold que, com cortes bem específicos, equilibra seu projeto, nunca deixando o espectador tirar os olhos da tela. Nessa sintonia, o cineasta e os escritores desenvolvem uma mesclagem perfeita de ação e drama.

A adrenalina imposta na trama já começa na ótima cena de abertura. Sendo um filme de corridas, não poderia faltar a presença marcante da mixagem de som, definindo a gravidade das situações e colocando os nervos do público à flor da pele. Seja nas conquistas ou derrotas, as cenas sempre possuem uma certa urgência, criando uma inquietude sobre qual será o resultado da competição. Para os amantes do gênero, essa é uma experiência perfeita, pois as sequências nas pistas são dignas de transmissões ao vivo.

Claro que quanto menos você souber sobre a história, mais os acontecimentos vão te surpreender. O que pode ser dito é que tudo se inicia quando a Ferrari, afundada em dívidas, recebe a proposta de compra pela Ford. Entretanto, o fundador Enzo Ferrari (Remo Girone) recusa o acordo por causa de determinadas cláusulas do contrato, criando um mal-estar entre as fabricantes. Sendo assim, temos o cenário ideal para uma história biográfica que envolve orgulho ferido e jogo de interesses, em um roteiro que não sai em defesa de nenhum dos lados. Pelo contrário: aqui, isso é deixado para o próprio espectador refletir, já que ambas as partes apresentam atitudes questionadoras. Não soa como filme propaganda, porque aqui também temos as perspectivas dos protagonistas.

Matt Damon e Christian Bale criam uma amizade genuína em cena, como o longa pede. No instante em que os negócios ameaçam abalar a relação, isso não surte tanto efeito, justamente porque entre eles possui confiança e parceria. Essa dramatização de Ford vs Ferrari vai ganhando mais credibilidade (mesmo tendo algumas manipulações), com Mangold focando em determinados objetos e utilizando-os como recursos narrativos. A fotografia de Phedon Papamichael também se faz presente nesse ponto, expondo belas associações visuais. Note, por exemplo, como ele utiliza (brilhantemente) os raios de sol e os flashs de luz para correlacionar dois momentos vividos pelos protagonistas. É uma cinematografia pontual.

Comentando sobre a trajetória de Ken, ela é toda pautada nos “sim” e “não” que a vida lhe dá. Ele é uma figura que tenta convencer na conversa, um pouco explosivo e impaciente, mas que também tem suas qualidades. Bale constrói a personalidade multidimensional de seu papel com perfeição, demonstrando como todas as suas virtudes, defeitos e conhecimentos são essenciais para fazer dele um admirável piloto. Por vezes, vemos em Ken um adulto com alma de criança (o brilho nos olhos do ator, nas cenas em que monta os carros, comprova isso). Mesmo que, por razões mercadológicas, muitas oportunidades não tenham tido êxito, o personagem não deixa de incentivar os sonhos de seu filho Peter (interpretado por Noah Jupe, um talento mirim).

A presença de Damon no filme é mais de “bastidores”. Não necessariamente pelo seu personagem liderar a equipe de engenheiros e designers da Shelby, mas por que o roteiro dá mais atenção ao Bale. Porém, isso não diminui a importância narrativa do papel, nem mesmo a força que Damon coloca em sua performance. O ator põe em suas falas o tom que precisam. Em um dos melhores diálogos, Carroll compara a sua (provável) curta vida, devido a problemas de saúde, com as imprevisíveis circunstâncias que estradas e corridas podem ocasionar. Assim, mais uma vez a história reforça as associações que pretende trazer.

Existem problemas na mudança para o ato final, soando apressado além da conta, e também dois coadjuvantes que poderiam ter tido mais desenvolvimento. O primeiro seria Lee Iacocca, vice-presidente da Ford, que, no começo da trama, ganha uma importância que não é notada no filme como um todo. Talvez, a boa entrega de Jon Bernthal tenha revelado mais do que o papel pedia. O segundo é Mollie Miles (Caitriona Balfe), esposa de Ken. Apesar dela se destacar em duas excelentes cenas, a personagem pedia mais.

No conjunto da obra, Mangold concebeu um drama esportivo de altas emoções. Essa é uma definição que acredito ser a mais adequada para o projeto. Aqui, temos o bom exemplo da união entre um ótimo roteiro e uma excelente direção, resultando em uma experiência intensa. Agora, nos resta esperar saber se Ford vs Ferrari chegará ao primeiro lugar das premiações. Foi dada a largada.

Ford vs Ferrari
4

Comentário do Crítico

Um drama esportivo de altas emoções. James Mangold desenvolve o projeto com precisão, mesclando perfeitamente a adrenalina das corridas com disputas de poder e corporativismo. Destaque merecido às entregas de Christian Bale e Matt Damon, que apresentam bastante sintonia em cena.

Sobre o Autor /

Um designer geek, cinéfilo de carteirinha, louco por livros e grande fã de Turma da Mônica e Mauricio de Sousa.

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