Crítica | Jojo Rabbit

Enquanto a maioria dos filmes de guerra conta com um tratamento mais sério sobre a representação do conflito, a mente de Taika Waititi nos apresenta uma abordagem diferente, ambiciosa e ousada. Baseado no livro O Céu Que Nos Oprime, de Christine Leunens, seu mais recente projeto acompanha uma criança que faz parte da Juventude Hitlerista e acredita nesses ideais, até descobrir que sua mãe esconde uma menina de origem judaica em casa. Enquanto a obra de Leunens é mais dramática, a versão de Waititi não poderia ser outra coisa senão satírica.

Jojo Rabbit carrega o humor característico do cineasta, inserindo elementos contemporâneos ao período, através da trilha sonora – que inclui The Beatles e David Bowie – e uma montagem dinâmica e precisa. Aqui, os nazistas são ridicularizados de diversas maneiras criativas, seja pela forma como vêem o mundo, se vestem ou até pela saudação. O diretor consegue tirar sarro de tudo, e 95% das piadas funcionam.

Por outro lado, mesmo que a comédia seja o gênero mais presente, o longa ainda representa os horrores da guerra através de sequências dramáticas e pesadas, de forma tocante e icônica. Também vale destacar o flerte com o terror no primeiro encontro entre o protagonista e a judia Elsa (Thomasin McKenzie), onde também é abordado o medo pelo desconhecido.

O protagonista Jojo (Roman Griffin Davis) é muito carismático, representando uma criança ingênua no meio de um período tão conturbado e tenso. A construção de sua improvável amizade com Elsa rende diálogos profundos sobre empatia, que discutem a lavagem cerebral feita pelo regime nazista. Os dois são responsáveis por criar momentos fofos e verdadeiros, e apresentam muita química juntos. Porém, com o tempo o filme foca muito na dupla e acaba esgotando a relação.

Outro grande destaque no elenco é Scarlett Johansson (Rosie), que brilha ao interpretar uma mãe cativante, carinhosa e uma das poucas pessoas conscientes do que está acontecendo. Ainda temos participações pontuais, mas marcantes, dos caricatos Sam Rockwell (Capitão Klenzendorf) e Taika Waititi (Adolf), além do divertido Archie Yates (Yorki). Todo o elenco conta com um sotaque alemão que convence e faz sentido dentro da proposta.

A ideia de conduzir a história a partir da visão do menino é eficientemente realizada a ponto de, por vezes, parecer que estamos assistindo a um conto de fadas. Esse caráter lúdico explora o contraste com a realidade e dá mais possibilidade para a obra explorar o olhar infantilizado do protagonista, como a imagem monstruosa e quase mitológica dos judeus fabricada pelos nazistas. Esteticamente, o conceito é ressaltado pela fotografia saturada, a paisagem bucólica e o design de produção, que carrega um ar de fantasia. A direção de Waititi ainda entrega um total controle de mise-en-scène e enquadramentos não apenas bonitos visualmente, mas também competentes como recurso narrativo.

O longa também fala sobre amadurecimento, sem deixar de lado o contexto histórico e como ele influenciou as pessoas que viveram naquela época. Há muitos elementos que são engraçados à primeira vista, mas que na verdade existem como forma de denúncia ao que realmente acontecia, como as crianças que eram mandadas para a guerra. Também é possível notar diversas referências ao período, incluindo figuras e acontecimentos históricos. Saber desses detalhes não é fundamental para o entendimento da trama, mas se você não faltou as aulas de história, irá apreciar ainda mais o filme.

Apesar de estar correndo por fora no Oscar, Jojo Rabbit merece todas as indicações que recebeu pelo reconhecimento ao trabalho do cineasta Taika Waititi. Ele prova, mais uma vez, que é um nome a ser acompanhado na indústria, trazendo uma visão fresca e com identidade para o cinema. Depois desta obra, fica a curiosidade para ver mais trabalhos do diretor e descobrir o que mais sua mente é capaz de criar.

Jojo Rabbit
4.5

Comentário do Crítico

O cineasta Taika Waititi mais uma vez acerta, usando seu humor particular para trazer uma nova visão aos filmes de guerra. Além de momentos divertidos e emocionantes, o longa ainda se destaca pela qualidade técnica, carisma e identidade.

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