Crítica | Maria e João: O Conto das Bruxas

João e Maria é um dos contos de fada mais famosos dos Irmãos Grimm. A história já passou por diversas adaptações desde seu surgimento – em diferentes mídias -, incluindo versões mais adultas. Quem não se lembra do fracasso de crítica João e Maria: Caçadores de Bruxas, de 2013? Esse foi um exemplo de ideia boa com execução ruim, entretanto, a recepção negativa não impediu que outros estúdios também tentassem fazer novos filmes partindo do mesmo material de origem. É o caso de Maria e João: O Conto das Bruxas, que opta por um tom mais sombrio e realista, e com foco na protagonista feminina.

Logo de cara, um dos elementos que mais chama atenção é sua ambientação. A floresta onde a trama se passa conta com um visual que parece ter saído de um livro de conto de fadas – só que macabro -, onde os minuciosos enquadramentos representam as páginas. Tudo parece muito mágico, mas ao mesmo tempo assustador. Os protagonistas passam boa parte do tempo sozinhos, apesar da sensação de que sempre estão sendo observados. De vez em quando vemos vultos e elementos estranhos no fundo, criando um senso de perigo constante para as crianças. Já no espectador, o diretor Oz Perkins planta a ideia de que algo não está certo.

Um dos méritos para a criação dessa atmosfera é a fotografia de Galo Olivares, que consegue se virar bem ao retratar uma época em que não existia energia elétrica. As locações internas fazem bom uso de velas, não só para iluminar o ambiente, como também para construir todo o clima, tornando as cenas mais íntimas. Já no exterior, algumas sequências noturnas acabam ficando muito escuras – provavelmente de forma proposital -, refletindo no público a desorientação dos personagens.

Mesmo contando com elenco de apoio, é possível afirmar que a trama é centrada no trio Maria (Sophia Lillis), João (Samuel Leakey) e a bruxa Holda (Alice Krige). O roteiro de Rob Hayes segue os eventos que todo mundo já conhece, onde duas crianças se perdem e encontram a casa de uma bruxa, porém aqui há muita liberdade para criar coisas originais. Não vou dar detalhes por questões de spoilers, mas, por exemplo, a própria casa não é literalmente feita de doces, adotando um caráter mais realista. Isso não quer dizer, que não há espaço para elementos mágicos e surreais, que não só estão presentes, como se intensificam com o decorrer da história.

Como o próprio título indica, nesta versão Maria é a protagonista, e Lillis realmente se entrega ao papel. Estamos quase a todo momento dentro da cabeça da menina, inclusive ouvindo seus pensamentos por meio de voice overs. Tudo isso é uma forma de inserir o público neste universo, fazendo-o sentir as mesmas dúvidas, aflições e medos da garota. Por ser a mais velha e consciente do mundo que vive, há também um subtexto sobre seu papel como mulher na sociedade e seu processo de independência. Inclusive, o roteiro insere muitas questões sobre aquele mundo nas entrelinhas, enriquecendo os diálogos. João representa o lado ingênuo e puro, tornando-se dependente de Maria. Ele funciona como um contraponto durante as discussões e a tomada de decisões da dupla, pois enxerga o mundo de outra forma.

Já a bruxa Holda impressiona pela sua caracterização, ponto para a equipe de maquiagem e figurino, que transformou Krige completamente. A atriz entrega muitas nuances a sua personagem, variando de uma senhora caridosa a uma figura mais rígida e intimidadora. Felizmente, não é uma interpretação óbvia para uma bruxa malvada, conseguindo criar sequências macabras o suficiente para continuar na sua cabeça após a sessão.

É bom avisar: este não é um filme de terror convencional. Não espere de Maria e João jumpscares oportunistas, pois a proposta está em criar uma experiência imersiva, construída sensorialmente e sem pressa. Se entrar de cabeça na proposta, o percurso será melhor, mas é preciso ter paciência e aproveitar cada detalhe da obra. Com o tempo, dá vontade de ver mais daquele universo apenas para contemplá-lo junto dos personagens.

Infelizmente, aqui também são cometidos alguns deslizes. Um dos mais notáveis é o uso dos efeitos visuais, que aparecem pontualmente, sempre de forma aparente e artificial, nos tirando completamente do filme. Isso resulta, por exemplo, num final anti-climático e pouco empolgante, distanciando-se da proposta inicial quando chega no clímax.

Maria e João: O Conto das Bruxas é uma ótima surpresa, trazendo frescor ao gênero do terror por fugir de convenções e apostar na construção da atmosfera. Ele vem para mostrar que contos de fadas mais adultos/sombrios podem ser mais do que uma boa ideia, refletindo em uma execução com muita identidade e originalidade.

Maria e João: O Conto das Bruxas
4

Comentário do Crítico

Com um visual mágico e sombrio, o longa aposta na atmosfera para criar a sensação de que algo está errado. Destaque para a fotografia, que nos transporta para um conto de fadas macabro, com muita identidade e elementos originais.

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