Crítica | O Diabo de Cada Dia

Desde que foi anunciado, o novo filme original da Netflix, O Diabo de Cada Dia, vem chamando atenção do público. A adaptação do livro homônimo de Donald Ray Pollock, conta com um elenco popular e premiado, incluindo Tom Holland, Bill Skarsgard e Robert Pattinson, aumentando ainda mais seu apelo. Tudo indicava que o título seria um sucesso e, agora que assisti, posso dizer que o longa cumpre com as expectativas criadas, valendo a pena conferir.

Pra começar, é importante dizer que o filme não é um terror, encaixando-se mais como um drama. Portanto, não pense que a trama envolve demônios ou elementos sobrenaturais. Ele pode ser aterrorizante e graficamente violento em alguns momentos, mas com o objetivo de abordar a natureza humana e as coisas crueis que somos capazes de fazer a partir do que acreditamos cegamente, com a maioria das histórias girando em torno da influência da fé dentro do recorte apresentado. O projeto é ambientado em uma cidade do interior dos EUA, nos anos 1960, após o fim da Segunda Guerra Mundial, e acompanha a vida de diversos personagens ao longo dos anos.

Um dos pontos mais legais é a forma como todas as narrativas estão, de certa forma, conectadas. Os arcos são desenvolvidos com calma para que o público entre aos poucos naquele universo e se familiarize com ele. Por se passar em uma cidadezinha, temos aquela sensação de que todo mundo se conhece, fazendo com que as subtramas se complementem de forma satisfatória. Não há sobras e tudo é encaixado de forma bem redonda, mérito para o roteiro de Paulo e Antonio Campos, que também dirige o projeto.

E por falar em direção, uma coisa que Campos consegue fazer muito bem é criar momentos de suspense e tensão. O longa é recheado de conflitos, e é comum vermos os personagens em situações apreensivas, em que o espectador sabe que não vão acabar bem. Mesmo sem sabermos exatamente o que vai acontecer, a aflição das pessoas fica evidente, sendo passada para o público.

Na história, não existe exatamente um protagonista, mas esse papel provavelmente iria para Arvin Russell (Tom Holland). Apesar do ator só aparecer lá para os quarenta minutos do filme, seu personagem é trabalhado desde a infância, a partir da criação rígida do pai (Bill Skarsgard), que o fez se tornar uma pessoa violenta e com sede de vingança. Uma dúvida que muitos tinham é se Holland realmente conseguiria dar conta de interpretar o personagem mais sombrio de sua carreira, já que ele é conhecido por viver pessoas boas e carismáticas, como o próprio Peter Parker. Felizmente, o ator surpreende, convencendo nesse papel desafiador.

Com tantos nomes no elenco, alguns acabam não ganhando tanto tempo de tela ou espaço para desenvolvimento quanto outros, sendo as personagens femininas as mais prejudicadas, como é o caso de Helen Hatton (Mia Wasikowska) e Charlotte Russell (Haley Bennett). Um dos atores coadjuvantes que se destaca é Robert Pattinson, que está com um sotaque carregado e interpreta o pastor Preston Teagardin tão bem que é praticamente impossível não odiá-lo. Inclusive, uma das melhores cenas do longa surge a partir de um conflito entre Holland e Pattinson. Já uma curiosidade é que o escritor do livro original é narrador da produção, trazendo informações que complementam o que é mostrado durante a trama, deixando algumas cenas até mais interessantes.

Também vale elogiar o som do filme de uma forma geral. Ele sabe aproveitar os momentos de silêncio, assim como quebrá-los com ruídos potentes, como é percebido no design de som dos tiros, sempre impactantes. A trilha sonora original de Danny Bensi e Saunder Jurriaans é outro destaque, criando uma identidade marcante para a obra, combinando com a atmosfera obscura.

O Diabo de Cada Dia é mais um acerto da Netflix, entrando pra lista de suas produções que devem ser lembradas na época de premiações. É um filme pesado, violento e com muitas figuras cruéis e aproveitadoras, mostrando uma visão mais crua do mundo.

O Diabo de Cada Dia
4

Comentário do Crítico

A produção possui ótimas interpretações, com destaque para Tom Holland e Robert Pattinson, além de contar com um roteiro redondo em meio a diversas subtramas sombrias interligadas.

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