Crítica | Pieces of a Woman

2021 está apenas começando, mas a Netflix já mostrou que veio com tudo esse ano. Uma das suas primeiras produções de janeiro é o longa Pieces of a Woman, dirigido por Kornél Mundruczó e escrito por Kata Wéber, dupla de húngaros responsável pelos premiados Deus Branco e Lua de Júpiter. E a produção que chegou recentemente ao streaming também está rendendo prêmios, começando pelo Festival de Veneza de 2020. Na trama, um casal se prepara para a chegada de um bebê e o começo de uma nova vida, porém, após a perda da criança, precisam lidar com o luto.

O filme abre com uma introdução excelente, que dura por volta de meia hora. Nesses minutos iniciais, somos apresentados ao casal Martha (Vanessa Kirby) e Sean (Shia LaBeouf), e toda sua empolgação pelo nascimento da primeira filha. Os momentos mais impressionantes de toda a produção acontecem nesse começo, onde há um plano-sequência que acompanha o parto feito em casa. Além das atuações convincentes, que passam a preocupação e desespero dos pais e da parteira, a cena ainda se destaca tecnicamente, pois passa por vários cômodos e é bem complexa. O segmento é bastante dramático e angustiante, com um misto de emoções que dificilmente não toca o público. É uma sequência extremamente íntima e muito bem dirigida, já valendo a pena conferir a obra só por conta dela.

Após essa introdução, o filme passa a explorar o luto, onde cada personagem lida com a perda de forma diferente. Por exemplo, enquanto Sean fica mais exaltado e irritado com toda a situação, e aqui vale mencionar que LaBeoulf está ótimo no papel; Martha reage de forma mais contida, e Kirby brilha ao passar o que sua personagem sente através de nuances de sua interpretação, como um olhar ou um gesto. E o longa também se esforça em criar elementos e simbolismos sutis para ressaltar sua percepção sobre a tragédia, o que é bem interessante de acompanhar. Depois de vencer em Veneza, é esperado que a atriz também apareça na categoria de Melhor Atriz nas premiações desse ano, incluindo o Oscar.

Com o decorrer da história, o casal precisa lidar com várias questões difíceis – chegando a lembrar um pouco a dinâmica de História de um Casamento, apesar de aqui termos uma trama mais pesada. Mesmo que o filme consiga manter a qualidade artística e lide com o tema com sensibilidade, ele não consegue voltar ao nível do que foi apresentado inicialmente.

Tecnicamente, além da bela fotografia de Benjamin Loeb e da trilha sonora melancólica de Howard Shore, também me chamou atenção a forma como a história é contada. A produção costuma não apostar no clássico plano e contra-plano, optando por longos planos-sequências, passeando pelo ambiente e acompanhando tudo que está acontecendo, criando uma maior proximidade com o espectador, que possui o papel de observador. Também há uma grande valorização das atuações por meio dos closes e até momentos onde é escolhido captar as reações e não necessariamente quem está falando.

Pieces of a Woman, definitivamente, é um filme para ficar de olho durante a temporada de premiações, principalmente pelas atuações. É um projeto que retrata muito bem a dor do luto em diversos aspectos, assim como ele é percebido individualmente, com destaque para o ponto de vista da mãe.

Disponível na Netflix.

Se você ou alguém próximo estiver sofrendo com luto ou questões de saúde mental, pode encontrar informações e recursos em wannatalkaboutit.com

Pieces of a Woman
4

Comentário do Crítico

O longa se destaca pela sensibilidade ao lidar com o luto, rendendo sequências angustiantes e excelentes atuações, incluindo Vanessa Kirby no papel principal.

Sobre o Autor /

Formado em Cinema e Publicidade na PUC-Rio, colab do TechTudo, maquinista do Trem do Hype.

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