Crítica | Rocketman

Nas primeiras impressões do filme, foi colocado que Rocketman estava mais próximo de O Rei do Show do que de Bohemian Rhapsody. Por mais que comparações possam tirar o foco da obra em questão, procurar relações entre as cinebiografias de Elton John e Freddie Mercury é inevitável, por serem figuras icônicas do Pop/Rock, pelo recorte de tempo parecido (décadas de 1970 e 1980) e por terem (parcialmente) o mesmo diretor, uma vez que Dexter Fletcher finalizou o primeiro e dirigiu completamente o segundo. O que um nos ensina sobre o outro é que, se o diretor estivesse no comando de Bohemian desde o início, Mercury poderia ter tido um longa minimamente à altura de sua grandeza. Rocketman é um filme muito mais ambicioso e, no geral, bem-sucedido. Ainda assim, sofre com alguns problemas similares.

O roteiro de Lee Hall (de Billy Elliott) teve a árdua tarefa de incluir décadas de acontecimentos em duas horas de longa. De cara, ele acerta ao seguir na busca do jovem Reginald Dwight por amor e aprovação desde sua infância. Sua transformação para o adulto Elton, com todos os seus pesares, soa orgânica ao espectador durante boa parte da projeção. Os artifícios melodramáticos não parecem convenientemente colocados só para dar um suposto peso maior à narrativa – o enfrentamento direto e a resolução dos mesmos, porém, acabam ficando meio mal encaixados, como se só estivessem lá por uma pretensa necessidade de externar os sentimentos conflitantes. Evidentemente, a tentativa de resumir, em poucas linhas de diálogo, questões tão complexas não funciona, resultando numa simplificação e estereotipização dos diferentes elementos que compõem sua identidade. Nesse sentido, é um filme quase tão conservador e convencional quanto o Bohemian.

Por outro lado, quando tudo se resume a uma busca por autoaceitação, o filme consegue encontrar sua força. A conclusão, com a utilização de um de seus hinos mais inspiradores (“I’m Still Standing“), é um exemplo perfeito disso. Um final em nota alta para um homem que viveu intensamente e serviu de exemplo para diversas gerações por justamente ter abraçado a sua essência. Seguindo um caminho um pouco tortuoso, o filme chega neste lugar, e por isso é tão empolgante. E, apesar de pisar em cascas de ovos em certos momentos, o longa nunca deixa de parecer um sincero desabafo do músico – uma vantagem provavelmente providenciada pelo seu envolvimento direto com a produção (Elton John é creditado como produtor executivo). O cansaço físico e emocional diante da mercantilização abusiva de sua arte talvez seja o ponto mais palpável, com ele sendo levado de um lado para o outro como uma ferramenta de trabalho.

Outra virtude que vale ser notada é a ambição da proposta, ao dar maior ênfase ao caráter fantasioso de sua vida, encontrado em momentos de pura euforia ou extremo desgaste. A direção de Fletcher aproveita isso muito bem com sequências musicais grandiosas – como o plano-sequência que liga sua infância à vida adulta, ao som de “Saturday Night’s Allright” – e que se utilizam da suspensão de realidade de maneira assumidamente poética. Talvez esse seja o grande diferencial do filme, que também evidencia os bem-azeitados aspectos técnicos. O design de som tem todas as nuances necessárias para diferenciar os ambientes e dar energia extra aos shows – o que também se deve bastante à ágil montagem de Chris Dickens – e a fotografia de George Richmond sabe criar perfeitamente uma atmosfera lúdica, teatral e, em poucas cenas, retrô (essas bem granuladas e foscas, como relíquias perdidas no tempo). A atenção dada ao figurino também merece destaque, por ajudar a contar a história visualmente (Elton vai literalmente se “desmontando” ao longo de uma sessão de terapia em grupo).

Por último, não poderia faltar uma menção ao talentoso elenco, que cantou e dançou junto ao protagonista. Bryce Dallas Howard e Richard Madden conseguem driblar os clichês nas construções de seus personagens e entregar boas atuações (Madden principalmente, pelo fato de seu personagem ter duas faces completamente diferentes), e Taron Egerton está espetacular no papel principal. A sua dedicação é perceptível e não se resume a uma caricatura ou imitação. Ele convence como um jovem Elton através de uma versão própria (e suficientemente similar) que – sim – canta e dança muito, mas também transmite toda a sua timidez inicial e crescente vivacidade, além de uma tristeza profunda. É um trabalho merecedor da atenção que deve receber na próxima temporada de premiações.

No geral, Rocketman é um musical divertido e encantador, que certamente vai agradar aos fãs do músico pelo uso incessante de canções da sua rica discografia. No papel, não é tão diferente de outras cinebiografias que exploram um processo de ascenção, queda e renascimento de seus protagonistas, mas essa ao menos parece mais autêntica e corajosa dentro de suas limitações.

Rocketman
3.5

Comentário do Crítico

Rocketman não foge de lugares-comuns de cinebiografias sobre grandes figuras da cultura pop, mas acerta ao abraçar a magia na arte e na vida de seu protagonista, além de funcionar muito bem como musical.

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