Crítica | Tolkien

O autor britânico John Ronald Reuel Tolkien dispensa quaisquer apresentações, pois se trata do homem por trás de um dos maiores fenômenos da literatura do século passado. Com O Hobbit e, na sequência, O Senhor dos Anéis, criou o equivalente a uma mitologia inglesa, com direito a línguas, povos, criaturas místicas e muito mais. Foi, sem sombra de dúvidas, um dos autores mais influentes da cultura pop, gerando por tabela inúmeros filmes, jogos e livros. Diante de figuras assim, criadoras de mundos próprios, há de se perguntar o que faz a cabeça do indivíduo em questão funcionar.

Acontece que, para a surpresa de ninguém, a história de vida de Tolkien foi bastante tumultuada, revelando um mar de influências que podem ter dado o impulso necessário para trazer um pouco de fantasia para a sociedade moderna. Além de um dedicado filólogo, ele viveu um amor proibido e lutou em guerra – aliás, na maior delas: a Primeira Guerra Mundial. Com tantos eventos emocionalmente carregados numa biografia só, era de se esperar que um filme sobre o autor sairia cedo ou tarde – o que nos leva a Tolkien, do diretor finlandês Dome Karukoski. O longa tenta dar conta do emaranhado de experiências intensas que foi a vida de Tolkien para, de certo modo, celebrá-la, mas a intenção fica mais evidente num nível literal do que sensorial. Temos ilustrações do que ele vivenciou, só que fica difícil de enxergar ou sentir algo além do básico com tanta superficialidade nas construções dos personagens e das situações pelas quais passaram.

Aqui, Tolkien é interpretado por Harry Gilby e Nicholas Hoult, e suas atuações são competentes, mas fazem os óbvios estereótipos de garotos-prodígio que cansamos de ver em obras do tipo. Há sempre a ideia de que, com uma inteligência sobre-humana, ele já estava pré-destinado a alcançar grandes feitos, quando o filme, na realidade, se destaca pelo extraordinário que ele encontrou coletivamente, como muitos outros. Suas amizades, paixões e dificuldades, mostradas de forma descompromissada, são o que realmente tornam a trama cativante. O problema é que não demora muito para esses momentos também servirem de instrumento para a criação de romance ou drama, e nada consegue ter o peso necessário, pois é tudo tão padronizado, em tão curto espaço de tempo, que não gera uma proximidade entre público e personagens.

Lily Collins também faz um ótimo trabalho como Edith (talvez seja o grande destaque do elenco), mas sofre por ser reduzida a um interesse amoroso, ou melhor, a musa dos sonhos do protagonista. Se esse último aspecto fosse propriamente explorado, teríamos algo ainda mais próximo de Os Sofrimentos do Jovem Werther, e poderíamos experienciar uma viagem realmente visceral. Infelizmente, a fotografia e a música não ajudam, fazendo o mínimo para parecer belo num escopo digitalizado e monocromático. A edição também busca objetividade onde não tem, tirando o pouco de vida que algumas imagens apresentam. O design de produção e a reconstituição de época funcionam, porém.

Tanto a recriação de uma Inglaterra em meados do século XX quanto as trincheiras sanguinolentas da Primeira Guerra convencem, ajudando na imersão do espectador. Essas últimas, inclusive, reservam alguns dos momentos menos extensos, porém mais interessantes do longa. É ali, diante da barbárie e da completa falta de esperança, que um jovem Tolkien enxerga, pela primeira vez, criaturas de fumaça e gigantes de fogo. O show de luzes em campo de batalha deixa claro o ponto de Karukoski, reforçado constantemente pelo mote “Helheimr“, que o protagonista costumava repetir com os amigos diante de desafios. A proposta é realmente boa, mas não se sustenta por si só. Valeria mais ter investido na potência das imagens do que tentado vender o filme como mais uma cinebiografia pautada na mera superação de obstáculos. Histórias extraordinárias requerem retratações extraordinárias.

Com tudo isso, Tolkien não deixa de ser um longa apreciável, principalmente se você é fã do personagem-título e procura conhecer mais a sua trajetória (o grau de veracidade não é colocado em questão aqui, porque uma reimaginação inofensiva é livre). Todo o romance, companheirismo e páthos envolvendo o protagonista geram os seus bons momentos. Porém, é um pouco decepcionante saber que um material fonte que poderia ter possibilitado algo tão grandioso quanto os próprios filmes da franquia O Senhor dos Anéis acaba tendo um tratamento pouco consistente com o que se propõe a fazer em diferentes níveis.

Tolkien
2.5

Comentário do Crítico

Tolkien tem muito a dizer sobre a criação artística, mas sofre com a tentativa de adequação aos moldes do gênero, apesar de evidentemente pertencer a uma abordagem mais contemplativa e fluida. Isso gera uma obra minimamente envolvente, mas descaracterizada e repleta de clichês.

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