O Jovem Karl Marx é educativo, mas deixa a desejar como filme

O Jovem Karl Marx, do haitiano Raoul Peck, traz às telonas um lado pouco conhecido de um dos filósofos mais importantes da história. Quando pensamos na obra de Marx, dificilmente associamos a imagem dele a um jovem boêmio, repleto de problemas financeiros e uma energia cativante. É muito mais fácil se lembrar do senhor de barbas brancas, sempre estampado nas páginas dos livros. Mas o longa faz questão de se distanciar desta imagem mais tradicional, mostrando que a lenda Karl Marx foi moldada muito antes de sua notoriedade, que não foi conquistada da noite para o dia – ou individualmente.

Friedrich Engels é quase tão importante para a trama quanto o próprio Marx, com seus dramas sendo abordados em determinados momentos. Entre estes, seu relacionamento com uma operária irlandesa e seus sentimentos conflitantes com relação ao pai, um poderoso industrialista alemão. Este último, inclusive, poderia ter sido o ponto mais interessante do filme, se fosse propriamente explorado. Mas qualquer falta de profundidade aqui não é acidental.

O roteiro não se preocupa em mergulhar nos dramas pessoais de seus personagens, só pincelar suas personalidades e motivações, para poder contar a história de origem do pensamento marxista de maneira bem didática. O resultado é similar às produções televisivas que provavelmente seriam passadas numa aula de história ou sociologia de sua escola ou faculdade. É efetivo, mas pouco palatável como experiência cinematográfica.

Em seus piores momentos, o longa tenta compensar o conteúdo massante com elementos apelativos, como cenas de perseguição ou sexo, e frases de efeito. O objetivo, ao inseri-los, é muito óbvio para serem genuinamente aproveitados, além de serem completamente desnecessários para a trama. Alguns até mesmo destoam completamente do tom estabelecido, como uma sequência lúdica em que os dois protagonistas fogem de alguns policiais.

Isto sem mencionar as figuras caricaturais às quais os personagens são reduzidos, até mesmo os protagonistas. Felizmente, no caso deles, o roteiro disponibiliza, em certa medida, alguns conflitos interessantes para permitir que os atores façam uso de seus talentos. O que mais se aproveita disso é August Diehl, que interpreta Karl Marx. Sua atuação consegue trazer um pouco de vida para os frios debates que parecem ter sidos pegos diretamente de um livro.

Mas se tem algo positivo nesta escolha, é que, de fato, o protagonismo todo vai para os pensamentos expostos. Grande parte do filme está voltada para encontros entre os intelectuais da época, e suas diversas discordâncias. Nestes contextos, Marx é constantemente colocado como um incansável contestador, o que, por si só, diz muito sobre o caráter revolucionário de sua principal tese. Se isso se mantém nos dias atuais, imagine na Europa do Século XIX.

Sendo assim, O Jovem Karl Marx funciona muito mais como uma aula de história do que como um filme. Quem conhece ou busca conhecer um pouco sobre a intelectualidade da época, certamente vai aproveitar bastante. Fora isso, há pouco para se apreciar aqui.

Ainda assim, chega a ser fascinante ver uma obra sobre Karl Marx tão embebida na estética do cinema industrial. A sequência inicial, por exemplo, que se passa numa floresta enevoada, mais parece algo tirado de Game of Thrones ou Senhor dos Anéis. Se por um lado isto demonstra uma certa falta de confiança no peso dramático dos problemas retratados, por outro, deixa bem evidente a intenção do diretor. Se isto não basta, as cenas finais, que são compostas por diversos materiais de arquivo de eventos históricos posteriores ao lançamento do Manifesto Comunista, já dão o recado.

O Jovem Karl Marx não é e nem tenta ser uma grande obra de arte, mas, sim, um registro de um capítulo importante da nossa história. As cenas mais puxadas para a aventura ou comédia, estão ali apenas para tornar a aula menos pesada. Mesmo assim, não era preciso abrir mão da autoria. Isto, certamente, ajudaria muito mais na popularização do filme, do que rápidas cenas expositivas que tentam justificar o longa como forma de entretenimento.

Nota: 2 vagões

O Jovem Karl Marx
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Comentário do Crítico

O Jovem Karl Marx é uma boa aula de sociologia e história, mas não funciona tão bem como filme.

Sobre o Autor /

Formado em cinema, amante de quadrinhos e produtor de conteúdo para o Trem do Hype

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