Ranking | Os melhores filmes do Universo Cinematográfico Marvel

Após nove anos na ativa, podemos dizer que o Universo Cinematográfico Marvel é um sucesso, que já proporcionou muitas alegrias aos fãs de cinema e quadrinhos.

Com o lançamento da mais nova produção do Marvel Studios, Thor: Ragnarok, nós, da redação do Trem do Hype, resolvemos fazer um ranking, listando dos piores aos melhores filmes deste universo compartilhado.

Tentamos chegar a um consenso, o que nunca é fácil, mas é recompensador, por gerar muita reflexão. Esperamos que o mesmo ocorra com vocês ao ler esta lista, porque, no fim das contas, é disso que o cinema se trata.

O Incrível Hulk (2008)

Direção: Louis Leterrier

Este filme não tem nenhum problema aparente. À princípio, é só mais uma ação, com um bom elenco e ritmo satisfatório para um thriller de perseguição. Porém, a falta de profundidade e, até mesmo, interesse no próprio personagem tornam esta aventura do Gigante Esmeralda completamente esquecível. É uma aposta segura, mas que, por consequência, falha em impressionar ou trazer algum sentimento diferenciado.

Edward Norton é um excelente ator, mas o roteiro é tão pouco inspirado, que não tem muito o que fazer. Ele tá sempre tenso, triste e é isso. É o protagonista mais funcional possível para o tipo de história que os realizadores buscaram contar. Nós vemos sua tristeza, sua angústia, mas não nos aprofundamos, quase como se ele fosse uma pedra.

Dá para perceber as inspirações da série antiga, principalmente pela trama de perseguição. Porém, os mesmos riscos que a produção tomou lá na década de 1980, aqui não são retomados. Se colocassem um Lou Ferrigno pintado de verde, ao menos poderíamos apreciar a coragem do longa. Mas, não, não há nada de diferente ou particular no filme. Só mais um blockbuster genérico que se leva a sério demais.

Ah, e colocar um ator que não fala português pra interpretar um brasileiro pode funcionar para os norte-americanos, mas, para nós, fica completamente ridículo. Sim, vocês sabem de quem estamos falando.

Homem de Ferro 2 (2010)

Direção: Jon Favreau

Homem de Ferro 2 é um filme divertido, mas foi bem decepcionante. E, não, não é só por causa do sucesso do primeiro. O principal problema da segunda aventura de Tony Stark foi a falta de foco do roteiro.

Parece que o filme tinha potencial para ser uma boa história de vingança, com a intimidadora presença do vilão Ivan Vanko, interpretado por Mickey Rourke. Mas os realizadores tiveram que empurrar diversas subtramas, que tinham potencial para um filme próprio.

Não estamos falando da disputa com Justin Hammer e a origem do Máquina de Combate, porque estes dois pontos até que se encaixam na trama central. Mas questões como o passado de Howard Stark, a intervenção da SHIELD (apresentando a Viúva Negra) e o alcoolismo de Tony Stark (assunto da célebre história “Demônio na Garrafa”) são desnecessariamente abordados e subaproveitados. Isto foi um desserviço para essas histórias individuais, que mereciam ser propriamente contadas. Como se isso tudo não bastasse, o roteiro tenta conectar todas convenientemente, ficando um tanto forçado (principalmente no caso da participação do Howard Stark).

Dito isso, o filme ainda se beneficia do forte carisma de Robert Downey Jr e excelente adições ao elenco, como Don Cheadle, Sam Rockwell, Scarlett Johansson e o próprio Rourke. Além disso, a ação continua empolgante, com sequências marcantes, como a da pista de corrida, com direito à linda referência à mala em que Tony Stark costumava carregar o uniforme. Mas bons momentos não compensam um roteiro inconsistente.

Thor (2011)

Direção: Kenneth Branagh

A primeira aventura do Deus do Trovão ganha pontos pela fidelidade. Tudo bem, o filme reduz toda a trajetória do personagem a, praticamente, um fim de semana perdido numa cidadezinha de interior, mas o faz pautado no material fonte (ainda mencionando o Dr. Donald Blake numa cena). Isto torna o seu desenvolvimento um tanto apressado, mas se este fosse o maior problema do filme, o filme não estaria nesta posição.

Thor começa como uma fantasia competentemente dirigida, com toques aventurescos e dramáticos muito bem desenvolvidos. As atuações e relações entre os personagens beiram o shakespeariano (especialidade de Branagh), trazendo uma atratividade para a trama, realçado pelo luxuoso desenho de produção.

Porém, tudo isso é deixado de lado quando Thor é mandado para Midgard (Terra). O longa passa de drama medieval à comédia “peixe fora d’água” num piscar de olhos, o que muda completamente a proposta. Mas o humor em si não seria tão ruim, se não fossem os personagens coadjuvantes, que chegam a ser irritantes de tão intrusivos. A que mais sofre com isso é a de Kat Dennings (e o público, por consequência).

Até há boas cenas neste núcleo terrestre, como quando Thor não consegue levantar o Mjiolnir. É um momento dramaticamente carregado e um ponto importante para a mudança do personagem. A questão é que essa mudança não soa orgânica. Ele conhece uns terráqueos simpáticos e passa a se importar com toda a população da Terra. Este é o problema de querer reduzir toda a trajetória de Donald Blake a um fim de semana com os amigos.

Felizmente, o filme volta a ganhar força no terceiro ato, com um emocional embate entre Thor e Loki. Mas não é o suficiente para reparar o estrago. É quase como se houvesse um episódio de uma sitcom cancelada no meio do filme do Thor. Não foi uma boa sacada.

Homem-Formiga (2015)

Direção: Peyton Reed

Este é aquele filme que entrega o que deveria, mas poderia ter sido mais. Muito disso se deve à troca dos diretores, provavelmente. Edgar Wright, que estava trabalhando no projeto desde 2003, se afastou após ter tido diferenças criativas com o estúdio. Ele deu seu lugar para Peyton Reed, que sabe fazer comédias de boa qualidade, mas não tem tanta identidade quanto Wright. Isto fica perceptível no filme.

O roteiro está repleto de piadas que condizem com o humor característico de Wright, mas Reed não as conduz com tanta confiança. Ele não mergulha de fato nas insanidades propostas pelo roteiro. Os contextos são bizarros e, por isso, ficam engraçados, mas as atuações e o ritmo das cenas é demasiadamente convencional. Sem falar que, tirando esses momentos, o filme se torna extremamente formulaico, com direito a um vilão genérico e arcos dramáticos pouco efetivos e mal explorados, como a tempestuosa relação entre Hank e Hope.

Enquanto isso, as cenas que envolvem conexões maiores com o resto do Universo Cinematográfico Marvel, apesar de empolgantes, não compensam a cisão entre o estúdio e Wright. Valeria bem mais um filme ousado e fora dos padrões, do que um com a marca da Marvel.

O caso é notável porque mostra o melhor e o pior dos universos compartilhados. Se por um lado podemos ver interações divertidas entre nossos personagens favoritos, por outro, há um controle muito maior do estúdio, fazendo com que o filme seja mais um produto do que uma obra de arte.

Thor: O Mundo Sombrio (2013)

Direção: Alan Taylor

Este filme supera seu antecessor por explorar bem mais os Nove Reinos, principalmente Asgard. O espectador consegue ver mais desse mundo, que é conceitualmente bem rico. Apesar da mitologia antiga, há diversos elementos futuristas, como naves espaciais e armas laser. É bem interessante esta mistura.

Além disso, o filme explora mais a relação entre Thor e Loki, com Tom Hiddleston roubando a cena como o Deus da Trapaça, o que é ótimo de assistir, mas problemático para o longa como um todo. Acaba que o único atrativo é o Loki, já que o próprio protagonista é negligenciado. E, não, isto não é porque Thor é um personagem mais chato. Em Vingadores ele teve algumas das melhores cenas. O fato de seu carisma não ter sido aproveitado neste filme é por falta de inspiração do roteiro, que, aliás, apresenta outros problemas que já estavam no primeiro Thor.

O principal (mais uma vez) é a desnecessária inclusão do núcleo terrestre. Todos sabemos que Natalie Portman é uma grande atriz, mas sua personagem não tem o que fazer no meio daquela aventura. O roteiro tenta justificar sua presença com uma coincidência absurda, que poderia até ser aceita, se Jane Foster realmente adicionasse algo à trama, além de um romance forçado e clichê com o protagonista. Para piorar, os amigos dela também se fazem presentes em boa parte da trama. Até que Stellan Skarsgard tem umas boas piadas como o Dr. Erik Selvig, mas não passa disso.

O antagonista, Malekith, também é um dos mais monótonos da Marvel. O problema não é a falta de motivação, mas a falta de presença ou diálogos cativantes. Até a luta final contra o Deus do Trovão tinha potencial para ser mais inventiva, mas a execução parece mais a de um episódio de uma série de TV da CW. Provavelmente, graças à troca de diretores. Substituíram Branagh (um bom diretor de cinema) por Alan Taylor, que é ótimo na TV, mas não se distanciou tanto do formato esteticamente, ainda que muitas produções televisivas já tenham até superado diversos filmes, neste sentido. Assim, Thor: O Mundo Sombrio está mais para um episódio da Marvel. Um bom episódio, mas que poderia ter sido muito mais, se tivesse sido pensado como um filme.

Capitão América: O Primeiro Vingador (2011)

Direção: Joe Johnston

O maior mérito do primeiro Capitão América é a maneira como o filme estabelece o personagem. O roteiro explora ao máximo toda a sua moralidade, coragem e senso de justiça, mostrando que Steve Rogers já era um herói muito antes de tomar o soro. Assim como a caracterização, sua origem também se assemelha muito à dos quadrinhos, sendo uma das adaptações mais fiéis da Marvel.

O mesmo vale para os personagens coadjuvantes, inclusive o seu clássico arqui-inimigo, Caveira Vermelha. Rumores diziam que Hugo Weaving não estava tão à vontade no set, mas nada disso é percebido. Sua versão do vilão é a tradução exata do personagem dos quadrinhos para as telas. O que mais passou por alterações foi Bucky Barnes, que deixa de ser um ajudante mirim e se torna um companheiro de luta e amigo de infância de Rogers. Foi uma mudança muito bem-vinda, já que a relação de amizade entre os dois movimenta a trama, não só deste filme, mas das duas sequências.

Porém, como um filme que se passa na Segunda Guerra Mundial, O Primeiro Vingador falha ao explorar este contexto histórico. Ele até mostra um pouco da propaganda de guerra, que é interessante, mas vemos pouco do Capitão e sua equipe atravessando campos de batalha, trocando tiros ou fugindo de explosões. Eles realizam missões mais contidas, que também poderiam ser exploradas de maneira atrativa, mas o filme as reduz a uma curta sequência, só para avançar a história.

Num mundo justo, teríamos uma trilogia inteira para ver o Capitão na guerra, mas como o estúdio precisava colocá-lo logo no presente, para poder incluí-lo no primeiro Vingadores, não vemos o suficiente de sua participação neste momento intenso da história mundial, e parece que não veremos tão cedo.

Doutor Estranho (2016)

Direção: Scott Derrickson

O filme já acertou na escalação de seu protagonista. Benedict Cumberbatch é um dos melhores atores trabalhando atualmente, e com sua chegada à Hollywood, vê-lo numa adaptação de quadrinhos era só uma questão de tempo. Bom, felizmente, ele foi escolhido para ser Stephen Strange, um homem extremamente sábio, poderoso e orgulhoso, como grande parte dos personagens que interpretou.

Como era de se esperar, o ator faz um excelente trabalho de caracterização, até mesmo no sotaque (para quem não sabe, Cumberbatch é britânico). Ao final, parece que estamos vendo o Doutor Estranho dos quadrinhos na tela, com toda sua superioridade intelectual e espiritual, e por mais que isso seja ótimo, talvez este seja o maior problema do filme.

Apesar da história ser muito fiel ao material fonte, a evolução do personagem é apressada demais. No começo de seu treinamento, ele erra bastante, o que é natural. Porém, após seu primeiro acerto, ele passa a dominar com total confiança as artes místicas. Alguém poderia argumentar que isto se dá por conta de sua genialidade, mas ainda gostaríamos de ter acompanhado sua trajetória com mais calma. Chega um momento em que ele consegue enfrentar, quase que de igual para igual, pessoas com muito mais experiência que ele.

Felizmente, o roteiro encontra uma solução inteligente para ele derrotar Dormammu usando o intelecto, e não suas habilidades (isto beiraria o ridículo). Sem falar que as sequências de ação são sensacionais, com efeitos especiais de cair o queixo. A maneira que o design da produção encontra para retratar a magia neste universo é muito inventiva, dando um toque plasticamente surrealista aos planos. Parece que estamos vendo um caleidoscópio em forma de filme.

Homem de Ferro 3 (2013)

Direção: Shane Black

Provavelmente uma das produções mais autorais da lista e, por consequência, a mais injustiçada. Quer dizer, injustiçado pelos fãs mais radicais, porque a terceira aventura do Homem de Ferro foi um sucesso de público e crítica. Mas por que alguns fãs ainda insistem em falar tão mal deste filme?

Bom, para começar, houve uma clara falha no marketing, ao vendê-lo como um dos filmes mais sombrios da Marvel. Na real, ele é uma típica comédia de Shane Black, a única diferença é que ele está usando personagens da Marvel e, com isso, deve seguir algumas regras.

Acho que isso que estraga um pouco o filme. Há a tentativa de retratar o Tony como um homem traumatizado pelos eventos que presenciou em Vingadores, mas nada disso é propriamente explorado. A única utilidade disso para a trama é ser uma desculpa para ele produzir tantas armaduras, que, por outro lado, são bem aproveitadas. O uso que Stark faz delas é muito diferente do que tínhamos visto até então, fazendo com que ele realmente se pareça com um super-herói.

Assim, as sequências de ação ficam mais inventivas e empolgantes. As em que ele está sem armadura também não ficam muito atrás, ao mostrar Tony como algo além de um homem numa roupa de metal. Sem falar que Shane Black sabe tornar qualquer situação mais divertida, ao explorar a fragilidade de cada uma delas (bem que ele poderia ter dirigido Homem-Formiga ou Thor: O Mundo Sombrio).

Mas o que torna Homem de Ferro 3, acima de tudo, relevante, talvez seja o seu ponto mais polêmico: o uso do personagem Mandarim. Muitos fãs se sentiram traídos com a virada envolvendo o vilão. Mas a verdade é que o Mandarim dos quadrinhos nunca teria causado tanto impacto quanto a versão de Ben Kingsley (brilhantemente interpretada, por sinal). Muito mais perigoso do que um gênio com anéis super-poderosos, o Mandarim do filme representa a cultura do medo. Medo que serve de distração para que os verdadeiros vilões possam sair ilesos. No caso, estes são personificados por Aldrich Killian, que não coincidentemente, tem planos ambiciosos para lucrar sobre a política. Com isso, Homem de Ferro 3 diz muito mais sobre o mundo em que vivemos do que o dos quadrinhos, se diferenciando do resto, mesmo com seus defeitos.

Guardiões da Galáxia Vol. 2 (2017)

Direção: James Gunn

A continuação do fenômeno Guardiões da Galáxia certamente tinha uma tarefa muito difícil: manter o nível do primeiro. Apesar de não suceder neste sentido, o longa está longe de ser um fracasso.

James Gunn volta com muito mais confiança na direção, abusando de seu estilo particular e explorando conceitos mais ambiciosos. Não poderíamos esperar menos, considerando o sucesso do primeiro. O resultado é uma direção muito mais identitária, reforçando tudo que foi introduzido no primeiro Guardiões. Você não gostou de Peter Quill dançando para derrotar Ronan? Bom, agora você vai ter que lidar com a sequência de abertura centrada no Baby Groot dançando, enquanto os outros membros da equipe lutam contra um monstro gigante.

Esta confiança de Gunn nas suas ideias é muito gratificante, principalmente para os fãs de seu trabalho. Mas se por um lado isto resulta em cenas memoráveis, por outro, também traz alguns excessos, como o de piadas.

O humor nos filmes da Marvel nunca me incomodou. Muito pelo contrário, normalmente é muito bem-vindo. Porém, em Guardiões 2, grande parte das piadas são previsíveis, forçadas e até mesmo intrusivas. A piada do rabanete, o Taserface e a Mantis sendo acertada na cabeça durante um momento épico são exemplos de como não inserir humor num filme.

Felizmente, a trama inteligente envolvendo o pai de Quill é mais memorável do que estes momentos fracos, e traz uma mensagem muito importante com relação ao papel dos pais na vida dos filhos. Sem falar que, emocionalmente, é um filme muito poderoso, não só pelo final comovente, como pela maneira em que ele trabalha a relação entre os personagens. O romance entre Peter e Gamora, por exemplo, é um dos melhores da Marvel, simplesmente por não precisar ser constantemente reforçado. Nós já sabemos que ele existe, então não há motivos para perder tempo com chamegos e declarações de amor vazias.

Homem de Ferro (2008)

Direção: Homem de Ferro

O primeiro Homem de Ferro já merece uma posição de destaque na lista só por existir. Sem ele, não teríamos Vingadores e dificilmente haveria esta onda de universos compartilhados em Hollywood (sem bem que isso não seria tão ruim). Mas há bons motivos para o filme ter gerado todo este movimento.

O diretor Jon Favreau, tenta contar uma boa história da maneira mais simples e rica possível. Só de trazer a origem do personagem dos quadrinhos para um contexto atual, o roteiro já consegue dar conta de diversos aspectos importantes para a composição do personagem, como o seu egoísmo inicial, sua genialidade e transformação, através de uma experiência traumática.

Claro que, apesar da abordagem pouco pretensiosa, o filme possui diversas sofisticações, principalmente quanto à qualidade técnica. As sequências de ação não soam artificiais, apesar de centrarem num homem numa armadura robótica. Homem de Ferro poderia facilmente ter se assemelhado a Transformers neste quesito, mas Favreau tenta tornar as batalhas o mais realista possíveis, dentro do óbvio contexto fantasioso.

Mas, acima de tudo isso, o estúdio conseguiu encontrar o ator perfeito para o papel. Tony Stark foi tão vital para Robert Downey Jr, que estava passando por maus bocados antes do filme, quanto Downey Jr foi vital para Stark. O carisma e a personalidade que ele inseriu no personagem ajudou a consolidá-lo como uma das figuras mais populares da cultura pop.

Vingadores: Era de Ultron (2015)

Direção: Joss Whedon

Se Homem de Ferro 3 não for o filme mais injustiçado do MCU, esta posição poderia ser facilmente ocupada por Vingadores: Era de Ultron. O único erro do filme foi ter forçado uma conexão com as próximas produções da Marvel, numa sequência que ainda ficou picotada, por intervenção do estúdio.

Tirando isso, o filme faz exatamente o que uma continuação deveria fazer: desenvolver ainda mais o universo estabelecido pelo seu antecessor, sem abrir mão da qualidade da própria história.

O engenhoso roteiro de Joss Whedon leva a dinâmica do grupo para o próximo nível, com relação ao que vimos em Vingadores. Desta vez, eles estão muito mais íntimos, integrados e organizados, se assemelhando ao que sempre vimos nos quadrinhos. A adição do Visão e dos gêmeos Maximoff também é muito apropriada, além de proporcionar alguns dos momentos mais marcantes da franquia.

Apesar do título Era de Ultron não ser o mais apropriado, já que seu tempo de existência foi bem breve, a participação do vilão não deixa a desejar. Sua concepção, apesar de ser bem diferente da que vimos nos quadrinhos, faz total sentido dentro do Universo Cinematográfico Marvel, e a atuação de James Spader o torna imponente e ácido. Sua personalidade irreverente e sarcástica, herdada de Tony Stark, faz com que ele não seja só mais um malvadão que quer destruir o mundo.

Enfim, Era de Ultron pode até ter decepcionado muita gente, mas ele foi fundamental para consolidar o Universo Marvel nos cinemas, desenvolvendo boa parte de seus personagens e, consequentemente, o grupo como um todo. Por ser um filme de transição, é natural que ele seja um dos menos queridos da franquia, mas são filmes assim que dão liga para toda a história, como acontece nos quadrinhos.

Guardiões da Galáxia (2014)

Direção: James Gunn

A ópera espacial de James Gunn foi, certamente, a aposta mais arriscada da Marvel. O estúdio pegou uma de suas propriedades menos populares, entregou para um diretor/roteirista que poucos conheciam e a tratou como uma grande peça para o MCU. Mas, parece que a Marvel sabia o que estava fazendo ao escolher Gunn para tocar o projeto, porque a crítica e o público compraram imediatamente a sua visão ousada e saudosista com relação à cultura pop da década de 1980. Me arrisco a dizer que o filme foi um dos expoentes por trás dessa onda nostálgica que invadiu o cinema e a TV.

Assim como as obras que referencia, Guardiões da Galáxia é um clássico instantâneo, não só pela composição visual marcante, mas pelos personagens memoráveis. Goste ou não, daqui a algumas décadas, as pessoas ainda vão lembrar do Baby Groot dançando com muito carinho. Mas é uma pena Groot ser o mais lembrado, com tantos personagens únicos, como Rocket, com sua rebeldia imprudente (para não dizer “estúpida”), Gamora, com sua determinação e Peter Quill, com sua atitude de Han Solo e maturidade de um adolescente. Mas nenhum vai superar Drax, que numa mudança drástica de personalidade em relação aos quadrinhos, se tornou uma das figuras mais hilárias do cinema atual, com sua falta de entendimento do sarcasmo. São traços de personalidade únicos que, individualmente, poderiam passar despercebidos, mas em conjunto, num grupo, formam uma interação única, relacionável e prazerosa de assistir.

Thor: Ragnarok (2017)

Direção: Taika Waititi

Se, um dia, num futuro distante, 99% dos filmes de super-herói forem esquecidos, Thor: Ragnarok não será um deles. Este é um daqueles raros casos em Hollywood em que o filme não é mais um produto do estúdio do que uma expressão artística de seu diretor. Como se isso já não fosse bom, o diretor no caso é Taika Waititi, umas das vozes mais particulares do cinema Indie atual. Ou seja, nós temos uma legítima obra de arte moderna aqui (como disse Joss Whedon).

O melhor de tudo é que o filme não nega o resto do Universo Cinematográfico Marvel. Na verdade, ele o abraça e tira sarro dele ao mesmo tempo, com seu humor autorreferencial. Mas as referências não são só da franquia. Há diversos planos e elementos que remetem diretamente a diversas obras da cultura pop, como Flash Gordon, Star Wars, Game Of Thrones, A Fantástica Fábrica de Chocolate e outros. Isto torna o filme um cocktail cultural com altas doses de humor.

Isso não quer dizer que o filme não respeita a mitologia dos quadrinhos. Além de todas as claras inspirações na arte de Jack Kirby, as consequências do Ragnarok aqui são muito parecidas com as dos quadrinhos, assim como todo o sentido do evento. Até o Hulk, com sua mentalidade de uma criança de 3 anos, lembra bastante as primeiras versões do personagem.

O filme só vai desagradar os fãs mais sisudos, que acham que a mitologia dos super-heróis deve ser levada a sério como qualquer drama estrelado por Meryl Streep ou Daniel Day-Lewis. Bom, Thor: Ragnarok pode até não ganhar um oscar de melhor filme, mas dificilmente outros filmes de super-herói ganhariam. A diferença é que Ragnarok reconhece isso, não se levando a sério em nenhum momento. Foi a melhor coisa que poderia ter acontecido com a trilogia do Deus do Trovão.

Homem-Aranha: De Volta ao Lar (2017)

Direção: Jon Watts

Todos que cresceram com Tobey Maguire como Homem-Aranha sabe como é difícil de imaginar outro ator interpretando o personagem. Mas Tom Holland chegou para mostrar que tudo que bastava era alguém que entendesse o aracnídeo tanto quanto Stan Lee e Steve Ditko, quando o conceberam. Sua versão pode ainda não ser a mais popular ou querida, mas já podemos dizer que é a mais fiel (dentro de seus limites) graças a Homem-Aranha: De Volta ao Lar.

O filme entende perfeitamente o Homem-Aranha porque sabe que sua história não é só sobre soltar teia por aí, fazer umas piadas e bater em bandidos. A história de Peter Parker é sobre passar dificuldades e superá-las, por reconhecer que ele tem uma responsabilidade muito grande. Mas o caminho costuma ser tortuoso até chegar aos acertos. De Volta ao Lar é exatamente sobre isso.

É um filme importante porque, acima de tudo, fala de amadurecimento. Não é porque Peter ganhou poderes que ele automaticamente se torna um super-herói perfeito. Ele erra muito, mas sua busca pelo aprimoramento e por fazer o que é certo faz dele um herói. Os filmes de Raimi também exploraram isso, mas a direção de Jon Watts se diferencia por destacar a fragilidade do personagem. Afinal, ele é só um garoto de 15 anos. E, não, ele não está novo demais. É a mesma idade que ele tinha quando ganhou os poderes nos quadrinhos. E a fidelidade do filme vai para além disso (com direito às clássicas asas de teia nas axilas).

Capitão América 2: O Soldado Invernal (2014)

Direção: Irmãos Russo

Para a surpresa de todos, o segundo filme do Capitão América foi o primeiro a mostrar que a Marvel sabe fugir de sua fórmula, quando necessário. Este é um filme do herói, mas poderia tranquilamente ser um filme de espião qualquer à la Jason Bourne.

Mais surpreendente ainda é saber que os diretores por trás dessa gema do cinema de ação são os irmãos Russo, dupla que na época era apenas conhecida por ter feito alguns episódios de sitcom’s. Quem diria que eles seriam capazes de realizar cenas de ação tão vibrantes? Mas eles demonstram competência durante todo o filme e não só nestes momentos. Um exemplo disso é na troca de olhares entre Steve e Bucky, antes e depois do último combate. Há tanta emoção naqueles planos, que compensa qualquer falta de desenvolvimento da relação deles no primeiro Capitão América.

Aliás, o filme é particularmente importante para a trajetória do personagem, por ser o que melhor estabelece sua personalidade nos dias atuais. É interessante ver como o seu senso de patriotismo se aplica nos Estados Unidos de agora e a atuação de Chris Evans deixa todos os seus sentimentos bem claros. A partir deste filme, ele passa a ficar muito mais à vontade no papel, assumindo, de vez, o manto do Capitão.

Os Vingadores (2012) e Capitão América: Guerra Civil (2016)

Direção: Joss Whedon (Os Vingadores) e Irmãos Russo (Capitão América: Guerra Civil

Nós, simplesmente, não conseguimos definir qual dos dois é o melhor. Ambos são importantíssimos para o MCU, porque, se por um lado Os Vingadores mostra, pela primeira vez nos cinemas, a formação da equipe, Guerra Civil mostra o seu fim (pelo menos como conhecemos).

Só que Os Vingadores tem, é claro, a vantagem de ter vindo primeiro. Poucos momentos no cinema se comparam à experiência de ver todos heróis lutando juntos, na Batalha de Nova York. Até hoje, é possível sentir arrepios ao lembrar do rugido do Hulk, enquanto a câmera gira em volta de toda a equipe, e a emblemática trilha sonora de Alan Silvestri se intensifica. O efeito é causado graças a toda expectativa, construída não só pelo excelente roteiro de Joss Whedon, que explora ao máximo as diferenças fundamentais entre os personagens, mas também por todos os anos em que fomos ao cinema ver as aventuras individuais de cada um dos heróis (menos Viúva Negra e Gavião Arqueiro, né, Marvel?).

Porém, Guerra Civil realiza algo talvez tão impressionante quanto. O filme dos Irmão Russo consegue fazer um verdadeiro malabarismo com diversos personagens completamente diferentes, num filme solo do Capitão América. O mais incrível é que, apesar disso, o longa consegue colocar em foco, o tempo todo, o personagem, fazendo com que ele não perca o protagonismo. Os realizadores ainda tinham a tarefa de contar as histórias de origem do Pantera Negra e do Homem-Aranha, e eles não só o fizeram de maneira decente, como conseguiram enriquecer a trama com suas presenças. Claro que muito disso se deve às habilidades de Chadwick Boseman e Tom Holland, mas sem um bom roteiro, estas seriam irrelevantes.

Cada interação entre os personagens nestes filmes causam reações inexplicáveis nos fãs, e não é só pelo fato deles estarem juntos, mas sim porque as histórias são bem contadas e exigem estes encontros. São filmes assim que justificam a criação de universos compartilhados (e a quantidade de dinheiro gasto vendo até as piores de suas peças). O cinema de super-herói não fica muito melhor do que isso.

Sobre o Autor /

Formado em cinema, amante de quadrinhos e produtor de conteúdo para o Trem do Hype

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